Petróleo passa de US$ 100 em meio à guerra, mas reservas da China evitam alta ainda maior
Importações chinesas caíram 32% no segundo trimestre, enquanto a Arábia Saudita busca rotas alternativas após danos ao oleoduto East-West.

Ataques recentes ao oleoduto saudita East-West e ao território iemenita elevaram o risco de uma nova escassez global de petróleo, mas analistas apontam que a estratégia chinesa de reduzir importações e recorrer a estoques próprios tem sido o principal fator a conter uma alta ainda mais acentuada dos preços, às vésperas da visita de Xi Jinping a Washington.
Os preços do petróleo recuaram cerca de 1% nesta quinta-feira, mas seguiram acima de US$ 100 o barril, enquanto o mercado avalia os efeitos de novos ataques entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen contra sinais de que a Arábia Saudita pode compensar parte da interrupção no fornecimento com o envio de mais petróleo por rotas alternativas. O contrato do Brent fechou em US$ 104,82, queda de US$ 1,01, enquanto o WTI, referência americana, caiu 52 centavos, para US$ 101,91, ambos os índices haviam recuado cerca de 3% na quarta-feira.
A escalada mais recente envolveu trocas de ataques na fronteira entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen, grupo apoiado pelo Irã, ampliando para território saudita e iemenita um conflito que já dura mais de seis meses desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro. Três estações de bombeamento do oleoduto saudita East-West, que leva petróleo até o porto de exportação de Yanbu, no Mar Vermelho, foram danificadas em um ataque na semana passada, segundo três fontes do setor de energia e de segurança ouvidas pela Reuters. A Arábia Saudita chegou a suspender os carregamentos em Yanbu e cancelar entregas a clientes europeus, o que levou o petróleo a atingir máximas de quatro meses nesta semana.
Para conter o impacto, a Arábia Saudita passou a oferecer mais cargas de petróleo a refinarias asiáticas por meio de transferências entre navios ao largo do porto de Sohar, em Omã, e trabalha para restabelecer cerca de metade da capacidade do oleoduto East-West nos próximos dias, segundo reportagem da Bloomberg. Foi justamente a notícia dessas rotas alternativas que fez o Brent recuar mais de US$ 3 em relação à máxima da semana, chegando a sua cotação mais baixa desde 10 de setembro.
O mercado de diesel também sente a pressão da guerra. Os futuros europeus de gasóleo, referência para o diesel na região, e os futuros americanos de diesel de baixo teor de enxofre fecharam em máximas históricas na terça-feira, à medida que ataques à infraestrutura energética no Oriente Médio e na Rússia restringem a oferta de combustível. Nesta quinta-feira, um ataque de drone ucraniano danificou uma refinaria na cidade russa de Yaroslavl, segundo o governador regional Mikhail Yevrayev.
A atual cotação do petróleo está bem distante dos piores cenários projetados quando a guerra começou. Em fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram o ataque contra o Irã que fechou parcialmente o Estreito de Hormuz, por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial antes do conflito, analistas alertavam que os preços poderiam mais do que dobrar. O Brent chegou a se aproximar de US$ 120 no auge da escalada em abril e recuou para perto de US$ 70 no início do verão, quando havia expectativa de um acordo de paz, antes de voltar a subir com o fracasso das negociações entre Washington e Teerã.
Para especialistas ouvidos pela Associated Press, um fator específico ajuda a explicar por que o pior cenário não se concretizou até agora: a estratégia chinesa de reduzir as importações de petróleo bruto. Pequim passou anos e bilhões de dólares construindo a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, estimada pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos em cerca de 1,4 bilhão de barris no fim do ano passado. Isso permitiu à China, maior compradora do petróleo iraniano e segunda maior consumidora global de petróleo, recorrer a seus estoques e cortar as importações de forma expressiva quando o Irã fechou o Estreito de Hormuz. Segundo dados americanos, as importações chinesas de petróleo bruto caíram para uma média de 8,1 milhões de barris por dia no segundo trimestre, quase 4 milhões de barris a menos, ou 32% de queda, em relação aos três primeiros meses do ano.
"Estivemos meio que pegando carona nas costas de Pequim", disse Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio do think tank Defense Priorities, à AP, ao observar que a China tem interesse próprio em evitar uma disparada de preços que prejudicaria a economia global e, por consequência, a própria economia chinesa. Já o analista Michael Lynch, da consultoria Strategic Energy and Economic Research, afirmou que "foi notável como a China administrou o mercado", ao recorrer a seus estoques em vez de entrar em pânico. Segundo a AP, especialistas em segurança avaliam que parte da motivação chinesa para acumular essas reservas está ligada a um planejamento de contingência para um eventual conflito envolvendo Taiwan, e não a um gesto de cooperação com Washington.
Esse pano de fundo energético chega a Washington na mesma semana em que o presidente chinês, Xi Jinping, inicia uma visita de Estado aos Estados Unidos para se reunir com Donald Trump. Segundo a AP, não está claro o quanto o tema Irã será discutido diretamente entre os dois líderes, mas a guerra e seus efeitos sobre a economia global devem estar na pauta. Antes do encontro com Xi, Trump se reúne na próxima terça-feira com líderes do Conselho de Cooperação do Golfo à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York.
Analistas do Bank of America projetam o petróleo em torno de US$ 83 o barril para o segundo semestre do ano, cenário que pressupõe uma retomada gradual do tráfego pelo Estreito de Hormuz apesar das interrupções recentes. Caso a violência se intensifique e mantenha o tráfego estrangulado, no entanto, os mesmos analistas estimam que os preços poderiam alcançar entre US$ 95 e US$ 120 o barril, com possibilidade de picos de até US$ 150 em caso de danos graves à infraestrutura energética da região.





















