IA vira foco da tensão entre EUA e China antes de Trump e Xi, enquanto ONU pede limites globais
Disputas por chips, acusações de cópia tecnológica e o avanço de modelos chineses ocorrem enquanto António Guterres alerta para riscos sem coordenação internacional.

Às vésperas do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Washington, disputas sobre chips, acusações de cópia de tecnologia e o avanço acelerado de modelos chineses colocam a inteligência artificial no centro da agenda diplomática, no mesmo momento em que o secretário-geral da ONU alerta que o desenvolvimento da IA corre à frente da capacidade dos governos de controlá-la.
A disputa pela liderança em inteligência artificial deve dominar boa parte da reunião entre o presidente americano, Donald Trump, e o chinês, Xi Jinping, marcada para a próxima semana em Washington. Antes do encontro entre os líderes, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já se reúne neste fim de semana com o vice-premiê chinês He Lifeng especificamente para tratar de temas ligados à IA, um sinal de que o tópico deixou de ser secundário na relação entre as duas maiores potências econômicas do mundo.
O pano de fundo é uma corrida tecnológica que se estreitou de forma acelerada nos últimos meses. Um relatório do Instituto Stanford para Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano aponta que a China vem reduzindo a vantagem histórica dos Estados Unidos em capacidade, pesquisa e citações científicas na área. Samm Sacks, pesquisadora do Instituto para América, China e o Futuro dos Assuntos Globais da Universidade Johns Hopkins, resume a percepção entre especialistas: a diferença entre os modelos americanos e chineses "é estreita e frágil".
Empresas chinesas como Moonshot AI, DeepSeek, Z.ai e Alibaba lançaram nos últimos meses modelos que chegaram a figurar entre os mais bem avaliados do mundo em rankings de desempenho, ainda que as posições mudem rapidamente, o modelo Kimi K3, da Moonshot, por exemplo, chegou ao terceiro lugar global em julho e caiu para o nono poucas semanas depois, à medida que concorrentes americanos lançavam novas versões. Avaliações de autoridades americanas sobre o tamanho dessa distância variam: um assessor da Casa Branca estimou em 2025 que a China estava de três a seis meses atrás dos EUA, enquanto o Departamento de Comércio americano calculou neste ano uma defasagem de cerca de oito meses para um modelo específico da DeepSeek. Já o executivo-chefe da Hugging Face, Clement Delangue, avalia que a China já lidera a corrida entre os chamados modelos de peso aberto, aqueles cujos componentes centrais podem ser baixados e modificados publicamente e pode não estar longe de assumir a dianteira também nos modelos mais avançados do mercado.
Entre os pontos de atrito que devem ser discutidos pelos dois governos está a chamada "destilação", técnica pela qual um modelo de IA menor é treinado a partir das respostas de um modelo maior e mais caro, reduzindo custos de desenvolvimento. Em setembro, o governo americano acusou seis empresas chinesas de copiar produtos de IA dos Estados Unidos por meio dessa técnica, afirmando que isso teria ocorrido "provavelmente com conhecimento do governo chinês". A embaixada da China em Washington já havia classificado acusações semelhantes, feitas em abril, como "infundadas".
Outro foco de tensão são as restrições americanas à exportação de chips avançados e de equipamentos para fabricá-los, em vigor desde 2022. Há indícios de contrabando de semicondutores de ponta para o território chinês, embora a extensão do problema seja desconhecida. Washington chegou a autorizar, no fim do ano passado, a venda à China de chips H200 da Nvidia, uma versão menos avançada da linha da empresa, decisão que gerou críticas de setores mais céticos em relação a Pequim dentro do próprio governo americano.
As divergências também são regulatórias. Enquanto a China já impõe regras sobre os algoritmos de IA e exige que conteúdos gerados pela tecnologia sejam identificados como tal, Trump descartou nesta semana a criação de novas normas federais americanas, afirmando que os pedidos de regulamentação feitos por executivos do setor seriam uma farsa.
É nesse cenário de disputa comercial e tecnológica que o secretário-geral da ONU, António Guterres, escolheu justamente a véspera da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas para alertar sobre os riscos do avanço descontrolado da inteligência artificial. Em coletiva de imprensa nesta terça-feira, Guterres reconheceu o potencial da tecnologia para acelerar o desenvolvimento sustentável e fortalecer sistemas de saúde e educação, mas destacou que cresce, entre os próprios responsáveis por desenvolvê-la, o alerta de que o ritmo de avanço supera a compreensão de seus riscos.
Para o secretário-geral, pausas voluntárias e isoladas não seriam suficientes para conter eventuais ameaças, já que a tecnologia e seus riscos, não respeita fronteiras nacionais. Guterres defendeu a criação de mecanismos internacionais de coordenação e citou o Painel Científico Internacional Independente sobre IA, criado para embasar decisões políticas em evidências técnicas. Segundo ele, o mundo "não pode se permitir uma corrida rumo ao fundo do poço na segurança da inteligência artificial". O tema, segundo Guterres, deve ocupar lugar central em suas conversas com líderes mundiais na próxima semana, justamente quando Trump e Xi devem se encontrar na capital americana.
A coincidência de calendário expõe uma tensão de fundo: enquanto Washington e Pequim disputam supremacia tecnológica e militar por meio da IA, incluindo cenários debatidos por especialistas de segurança sobre o risco de sistemas autônomos interferirem em redes de comando nuclear ou desencadearem ataques cibernéticos mal interpretados como agressões deliberadas, a ONU tenta reposicionar o tema como uma questão de governança global, e não apenas de competição entre potências. Não há, até o momento, indicação de que o encontro entre Trump e Xi deva produzir compromissos formais sobre limites ou salvaguardas para o uso militar ou comercial da tecnologia.





















