Chevron confirma expansão na Venezuela enquanto EUA avançam sobre reservas de 65 bilhões de barris

A petrolífera americana anunciou investimento superior a US$ 7 bilhões para dobrar a produção venezuelana até 2031, poucos dias depois de a Casa Branca fechar um acordo mais amplo que dá ao Pentágono participação nos lucros do petróleo do país — pacote que já é alvo de questionamentos sobre sua legalidade.
A Chevron confirmou nesta quarta-feira, 2 de setembro, a expansão de suas operações na Venezuela. A empresa informou ter recebido uma área adicional na Faixa do Orinoco, onde já mantém uma posição consolidada. O plano prevê investimentos de mais de US$ 7 bilhões nos próximos cinco anos e pretende mais que dobrar a produção no país, levando-a dos níveis atuais para cerca de 600 mil barris por dia. Em comunicado, o presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, afirmou que a companhia está presente na Venezuela há mais de um século e que a nova posição "reflete confiança no profundo potencial de recursos do país", além de criar "crescimento de petróleo de baixo custo" e "valor de longo prazo diferenciado". A Chevron opera na Venezuela desde 1923. É a segunda maior petrolífera americana e a única com presença relevante no país, por meio das joint ventures Petroindependencia e Petropiar, na Faixa do Orinoco, e da Petroboscan, no estado de Zulia.
A expansão foi anunciada um dia depois de um funcionário americano dizer a jornalistas, sob condição de anonimato, que executivos da Chevron e o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, viajariam à Venezuela na quarta-feira para formalizar o investimento. O movimento se soma a um acordo mais amplo confirmado pela Casa Branca na segunda-feira, 31 de agosto: uma parceria com a North American Blue Energy Partners (Nabep), empresa do empresário venezuelano Alejandro Betancourt e já a segunda maior operadora do país. Segundo a Casa Branca, o acordo prevê a criação de uma nova empresa na qual o Pentágono terá participação de 35%, enquanto o Departamento de Estado americano poderá comprar 20% do petróleo produzido pelo custo de produção. Documentos divulgados pela Casa Branca mencionam até US$ 100 bilhões em novos investimentos para reconstruir a infraestrutura petrolífera venezuelana, deteriorada após anos de abandono. Juntos, os contratos concedem à nova empresa direitos por 100 anos sobre 17 campos de petróleo, com reservas estimadas em 65 bilhões de barris.
Analistas ouvidos pela imprensa americana questionam se a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, tem autoridade legal para conceder direitos de 100 anos sobre esses campos e se futuros governos — venezuelanos ou americanos — poderiam anular o acordo. A Constituição venezuelana exige que contratos desse tipo com governos estrangeiros sejam aprovados pela Assembleia Nacional, o que não ocorreu. Um funcionário americano argumentou, porém, que o acordo foi firmado com a Nabep, uma entidade privada sediada em Barbados e com operações principais em Caracas, e não com um governo estrangeiro. Segundo essa interpretação, portanto, a aprovação legislativa não seria necessária.
A escolha de Betancourt como sócio também levantou questionamentos. Segundo reportagens, ele foi alvo de investigações criminais por suposta lavagem de dinheiro na Espanha e na Suíça, mas não chegou a ser formalmente acusado. Um funcionário do governo americano disse que o empresário foi investigado e que a administração concluiu que "nenhuma lei americana foi violada". O funcionário descreveu Betancourt como "o único parceiro viável disponível para o trabalho" e afirmou que "é preciso trabalhar com os fatores que você tem à disposição". Já o economista Steve Hanke, professor da Universidade Johns Hopkins e ex-assessor do ex-presidente venezuelano Rafael Caldera, classificou o acordo, em entrevista à Daily Caller News Foundation, como algo "fechado em sigilo, sem debate público e assinado sob coação". Hanke também afirmou que "Caracas é um lugar ensolarado habitado por personagens obscuros ligados ao atual governo socialista" e concluiu que, em sua avaliação, o pacote é "ilegítimo e provavelmente ilegal" — uma opinião pessoal, e não um veredito jurídico.
Um segundo funcionário americano, também sob anonimato, minimizou a controvérsia ao descrever o acordo como "bastante padrão". Segundo ele, o escritório responsável — o Office of Strategic Capital do Pentágono, criado durante o governo de Joe Biden para investir em tecnologias de interesse da segurança nacional — já fechou outros acordos semelhantes desde o retorno de Trump à Casa Branca. O funcionário afirmou que o governo americano não está investindo dinheiro público diretamente na nova empresa, mas que seu apoio institucional deve ajudar a atrair investidores para elevar a produção.
O avanço sobre o setor petrolífero venezuelano ocorre quase cinco meses depois de uma operação militar americana ter capturado, em janeiro, o então ditador Nicolás Maduro, levado aos Estados Unidos para responder a acusações federais de narcoterrorismo e tráfico de drogas. Na época, Trump disse que os EUA efetivamente "administrariam" a Venezuela até que uma transição fosse possível e prometeu enviar grandes petrolíferas americanas para reconstruir a infraestrutura energética do país. Desde então, a Venezuela segue sob a presidência interina de Rodríguez, enquanto Washington tenta reabrir o país a compradores de petróleo e credores internacionais por meio de um plano em três fases. Segundo analistas, o processo deve levar anos para reverter décadas de negligência na produção.
Um funcionário americano afirmou que o objetivo da Casa Branca é equilibrar a realização de eleições "o mais rápido possível" com a manutenção da estabilidade durante a transição. Segundo ele, esse tipo de processo "quase invariavelmente exige trabalhar com elementos da estrutura existente, mesmo enquanto se constrói uma nova".
A presença americana no petróleo venezuelano tem raízes profundas, mas também um histórico de rupturas. Empresas dos EUA ajudaram a desenvolver a indústria décadas antes de o então presidente Hugo Chávez concluir, em 2007, a nacionalização do setor — movimento que levou ExxonMobil e ConocoPhillips a deixar o país. A Chevron foi a única grande petrolífera americana a manter operações na Venezuela desde então, inclusive em meio às mudanças da política americana. O governo Biden permitiu que a empresa voltasse a negociar com a estatal PDVSA em 2022 e concedeu uma licença naquele mesmo ano. Já o primeiro governo Trump tentou revogar, em 2025, as licenças herdadas da gestão Biden. A Chevron, no entanto, continuou sendo a única grande petrolífera americana no país enquanto Washington pressionava por maior envolvimento no setor no início de 2026.
Segundo Trump, outras companhias também estariam se preparando para retomar operações no país. "Temos a Exxon entrando, temos a Chevron entrando. Temos nossas grandes petrolíferas entrando", disse o presidente a jornalistas na Casa Branca na segunda-feira — declaração que a ExxonMobil não confirmou publicamente. Em janeiro, Trump já havia dito que tendia a deixar a Exxon fora da Venezuela, depois de o presidente-executivo da empresa, Darren Woods, classificar o país como "não investível".
Paralelamente ao avanço na Venezuela, Trump tinha uma reunião marcada para terça-feira com um grupo de grandes e pequenas refinarias para discutir maneiras de ampliar a capacidade americana de transformar petróleo em gasolina. Segundo a Casa Branca, o aumento do número de refinarias e da capacidade das unidades existentes deve, eventualmente, reduzir os preços para o consumidor. O governo americano também avalia que essa expansão será necessária para processar o petróleo que viria da Venezuela.
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