Prédio já rachado por bombardeios desaba em Gaza e mata ao menos 20 pessoas enquanto dormiam
Edifício abrigava cerca de 100 pessoas e estava entre os aproximadamente 2 mil prédios danificados que ainda servem de moradia na Faixa de Gaza.

O colapso, na madrugada desta quarta-feira, expõe uma tragédia maior: cerca de 2 mil edifícios danificados pela guerra ainda abrigam famílias palestinas que não têm para onde ir, quase um ano depois de um cessar-fogo que não trouxe nem reconstrução nem segurança.
Um prédio residencial na Cidade de Gaza, já danificado por ataques israelenses no início da guerra e conhecido por estar à beira do colapso, desabou de repente pouco antes do amanhecer desta quarta-feira, 16 de setembro, matando dezenas de pessoas enquanto dormiam. Há divergência entre as agências de notícias sobre alguns números centrais do episódio: a Associated Press (AP) fala em ao menos 21 mortos, incluindo 11 crianças; já a Reuters e a agência EFE registram 20 mortos, com a Reuters citando seis crianças entre as vítimas e a EFE mencionando 17 mulheres e crianças no total. Também há discrepância quanto ao tamanho do prédio, cinco andares, segundo a AP; seis, segundo a EFE; sete, segundo a Reuters, sem que as fontes disponíveis expliquem a diferença. Reuters e EFE coincidem, porém, em um dado: cerca de 100 pessoas viviam no local, e dezenas ainda estavam soterradas horas depois do desabamento.
Segundo a Defesa Civil de Gaza, os moradores do prédio, batizado de "Felicidade" segundo a EFE, haviam sido avisados havia seis meses sobre o risco de desabamento, mas a maioria se recusou a sair por falta de outro tipo de abrigo. O diretor da Defesa Civil de Gaza, Mahmud Basal, resumiu a lógica por trás dessa decisão à EFE: "A verdade é que não há alternativas em Gaza. Quem já viveu as dificuldades de morar em barracas não pode simplesmente trocar o concreto por uma tenda." O edifício não tinha janelas, e os moradores cobriam as aberturas com plástico e papelão para se proteger do frio e do calor. O colapso ocorreu por volta das três da manhã e foi precedido pela queda de destroços de partes da estrutura, o que levou parte dos moradores a fugir antes do desabamento completo, um alerta que, segundo os relatos, não foi suficiente para salvar todos.
Um sobrinho de uma das vítimas, Bashir Abu Al-Shaar, contou à Reuters junto ao corpo do tio, Abdallah Abdel Rahman al-Ejlah: "Meu tio foi morto junto com toda a sua família, seus filhos, sua esposa, suas filhas e netos." Segundo o relato, o tio não conseguira lugar em nenhum abrigo por causa da superlotação dos centros disponíveis, e por isso vivia num prédio que sabia poder desabar.

As equipes de resgate cavaram os escombros majoritariamente à mão, diante da falta de máquinas pesadas, um ponto em que as três reportagens coincidem. Raed Al-Dahshan, diretor do serviço de defesa civil da Cidade de Gaza, disse à Reuters ainda haver esperança de encontrar sobreviventes: "Ainda estamos ouvindo vozes vindas de debaixo dos escombros." Já Alessandro Mrakic, chefe do escritório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em Gaza, descreveu a operação como particularmente difícil pela falta de equipamentos adequados, com pessoas "cavando com as próprias mãos", e alertou que cerca de 400 prédios em Gaza correm risco iminente de desabar, um risco que tende a crescer com a chegada do inverno e das chuvas.
Autoridades palestinas e da ONU atribuem essa escassez de maquinário às restrições israelenses à entrada de equipamentos em Gaza; Israel afirma que essas restrições visam impedir que máquinas cheguem às mãos de grupos armados. Questionado pela AP se autorizaria a entrada de máquinas para ajudar no resgate deste desabamento específico, o órgão militar israelense responsável por coordenar a ajuda humanitária à Faixa, a Cogat, respondeu apenas que a política do governo israelense permite a entrada de maquinário pesado em Gaza, uma resposta que, segundo a reportagem, contrasta com o relato de que apenas um punhado de escavadeiras foi de fato autorizado a entrar no território desde o início do cessar-fogo.
Uma crise habitacional maior do que um único prédio
O caso da Cidade de Gaza não é isolado: segundo a Reuters e a EFE, cerca de 2 mil prédios danificados pela guerra ainda abrigam famílias palestinas em toda a Faixa. Um levantamento do Conselho Norueguês para Refugiados, feito em março, já havia constatado que mais de um quinto dos prédios avaliados na Cidade de Gaza não tinham condições estruturais seguras, mas os moradores relataram não ter para onde ir. Uma avaliação mais ampla, divulgada em agosto pela coalizão de organizações que cuida de abrigos em Gaza, mostrou que dois terços das famílias palestinas hoje vivem em acampamentos de tendas, e que, entre as famílias que ocupam construções, 72% estão em estruturas com danos leves ou moderados. Segundo a plataforma humanitária ligada à ONU Site Management Cluster, citada pela EFE, cerca de 1,7 milhão de pessoas, de uma população de aproximadamente 2 milhões, estão hoje deslocadas em Gaza, e cerca de 80% da infraestrutura da Faixa está parcial ou totalmente danificada após quase três anos de ofensiva israelense. Basal também denunciou restrições israelenses à entrada de material de abrigo, como caravanas ou moradias temporárias, e disse à EFE que organizações internacionais contatadas pela Defesa Civil relatam falta tanto de material quanto de espaço físico para novos abrigos, num território hoje ocupado em cerca de 70% por forças israelenses.
Um acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em vigor desde outubro de 2025, interrompeu os combates em grande escala em Gaza, mas não pôs fim aos ataques israelenses nem trouxe avanços significativos rumo a uma paz permanente. Segundo autoridades de saúde do território, mais de 1.300 palestinos, a maioria civis, foram mortos em Gaza desde que o acordo entrou em vigor; as Forças Armadas de Israel, por sua vez, dizem que quatro soldados israelenses morreram no mesmo período, o Hamas não costuma divulgar informações sobre baixas entre seus próprios combatentes. O grupo acusa Israel de violar o cessar-fogo e de minar a implementação do plano mais amplo do presidente americano, Donald Trump, para encerrar o conflito, que prevê a retirada israelense da Faixa e o desarmamento do Hamas, enquanto Israel afirma que é o Hamas quem descumpre o acordo. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, ligado ao governo administrado pelo Hamas mas cujos registros são considerados geralmente confiáveis pela ONU e por organizações internacionais, a guerra, que começou após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em outubro de 2023, quando cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 feitas reféns, já matou mais de 73.789 palestinos ao longo de quase três anos; o ministério não distingue civis de combatentes em seus números, mas afirma que mulheres e crianças somam cerca de metade do total.
Nesse contexto mais amplo, o desabamento desta quarta-feira reforça um alerta feito dias antes pelo alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, de que os corpos já recuperados dos escombros de Gaza podem representar apenas "a ponta do iceberg" de uma catástrofe humanitária que, segundo a ONU, deve levar anos para ser sequer dimensionada por completo.





















