Cúpula do Brics leva Irã e Emirados à mesa pela primeira vez desde o início da guerra entre os dois países
Declaração final do encontro em Nova Délhi pede contenção no Oriente Médio, apoia a Palestina e destaca as aspirações de Brasil e Índia por maior espaço nas Nações Unidas.

Na declaração final divulgada em Nova Délhi, o bloco voltou a defender uma reforma da ONU que beneficiaria Brasil e Índia, mas o fato mais notável do encontro foi diplomático: Teerã e Abu Dhabi voltaram a se falar diretamente, ainda que sem anunciar qualquer solução para o conflito que os divide.
A 18ª Cúpula do Brics, realizada em Nova Délhi entre os dias 11 e 13 de setembro, teve como principal resultado político uma aproximação inédita entre Irã e Emirados Árabes Unidos: os dois países assinaram, no primeiro dia do encontro, uma declaração conjunta do bloco pedindo contenção na guerra que os opõe no Oriente Médio, e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, se reuniu com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, o encontro de mais alto nível entre os dois países desde o início do conflito, seis meses atrás. O escritório de mídia de Abu Dhabi informou, em publicação no X, que os dois líderes discutiram questões regionais e internacionais, distensão, estabilidade e esforços para promover a paz e o desenvolvimento na região, mas não mencionou qualquer resultado concreto do encontro.
O Irã lançou repetidos ataques contra os Emirados ao longo do conflito, o mais recente no fim de agosto, quando atingiu a base aérea de Al Minhad, que abriga forças e helicópteros americanos. Segundo especialistas ouvidos pela Reuters, o principal teste para o bloco na cúpula era justamente encontrar uma linguagem sobre a crise no Oriente Médio que fosse aceitável tanto para Abu Dhabi quanto para Teerã, um texto que, embora dificilmente influencie o cenário geopolítico imediato, demonstraria unidade entre as nações emergentes que compõem o grupo. O ex-embaixador indiano nos Emirados Árabes Unidos, Sunjay Sudhir, resumiu à Reuters o papel da Índia, anfitriã do encontro, nesse processo: "A chave para encerrar a guerra está nas mãos dos EUA e de Israel. O que a Índia fez foi manter as conversas difíceis em andamento, mostrando que os países da região podem se sentar à mesma mesa, dialogar e construir a partir dos pontos em que seus interesses convergem."
Na declaração conjunta do Brics, os líderes disseram estar "profundamente preocupados com a escalada contínua das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental" e pediram "máxima contenção", além de evitar ações que possam agravar ainda mais a situação, o texto também defendeu a proteção de civis, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, e a manutenção do fluxo global de comércio, cadeias de suprimento, energia e segurança marítima. O presidente chinês, Xi Jinping, foi além, dizendo que a China está pronta para desempenhar seu "devido papel" na busca por paz e estabilidade na região, e defendeu, segundo a emissora estatal CCTV, que as partes envolvidas permaneçam comprometidas com uma solução política e um cessar-fogo permanente e abrangente.
Além do Oriente Médio de forma geral, o texto final dedica atenção especial a Gaza: os líderes do Brics expressaram preocupação com a violência que persiste no território apesar do cessar-fogo firmado em outubro de 2025, pediram o fim de qualquer política de deslocamento forçado de palestinos e reiteraram apoio à adesão plena do Estado da Palestina às Nações Unidas, dentro da solução de dois Estados. O documento também condenou o uso da fome como método de guerra e reafirmou apoio à Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (Unrwa). Sobre o Líbano, o bloco saudou o cessar-fogo em vigor, mas condenou ataques contra a missão de paz da ONU no país (Unifil) e registrou condolências pela morte de quatro capacetes-azuis indonésios e de outros integrantes da força, cobrando que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados.
Um ponto que chama atenção para o público latino-americano: a declaração expressa "profunda preocupação" com a situação de Cuba diante do que descreve como aperto das medidas unilaterais de bloqueio contra o país, e reitera a necessidade de encerrar essas medidas econômicas, comerciais e financeiras, uma posição que o bloco já vinha defendendo em declarações anteriores.
Os interesses do Brasil
Para a diplomacia brasileira, o trecho mais relevante da declaração é a reafirmação do apoio a uma reforma abrangente da ONU, incluindo o Conselho de Segurança, para torná-lo "mais democrático, representativo, eficaz e eficiente" e ampliar a participação de países em desenvolvimento. O texto registra explicitamente que China e Rússia, os dois membros permanentes do Conselho de Segurança dentro do bloco, reiteram apoio às aspirações de Brasil e Índia de desempenhar papel mais relevante nas Nações Unidas, inclusive num Conselho de Segurança reformado. O documento também dá destaque ao combate à desigualdade "dentro e entre os países" como uma das origens dos principais desafios globais atuais, e retoma a proposta de Brasil e África do Sul de criar um painel internacional sobre desigualdade.
No campo econômico, os líderes reafirmaram o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado Banco do Brics, como instrumento estratégico de financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, e defenderam a ampliação de sua capacidade de captar recursos, diversificar fontes de financiamento e expandir operações em moedas locais, além de apoiar a entrada de novos países-membros na instituição. O texto também aprofunda discussões sobre mecanismos de pagamento entre os países do bloco, sem citar nominalmente o Pix brasileiro, mas defendendo princípios compatíveis com esse tipo de sistema, como a interoperabilidade entre plataformas de pagamento, a integração de canais de mensagens financeiras e o aumento de liquidações comerciais em moedas locais.
Criado em 2009 para contestar uma ordem mundial dominada pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, o Brics reunia originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O grupo já havia se expandido com a entrada de Egito, Etiópia e Indonésia, além do próprio Irã e dos Emirados Árabes Unidos e, segundo a Agência Brasil, hoje soma 11 países, incluindo também a Arábia Saudita, representando juntos 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global. Essa heterogeneidade crescente é, ao mesmo tempo, a força e o desafio do bloco: o anfitrião do encontro, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, disse ao abrir a cúpula que o Brics "chegou à maturidade" e que era hora de transformar sua unidade e seu consenso em resultados concretos no cenário global uma meta que a própria dificuldade em unir Irã e Emirados em torno de um texto comum sobre o Oriente Médio ajuda a dimensionar. A presidência rotativa do bloco passará à China em 2027, que sediará a próxima cúpula.





















