Carney tenta aproximar Canadá da UE e atrair investimentos durante disputa comercial com Trump
Primeiro-ministro canadense defende uma aliança econômica e de segurança sob medida, mas Bruxelas resiste a modelos que ampliem a mobilidade sem estender as quatro liberdades do mercado único.

O primeiro-ministro canadense parte para a Europa dias depois de o presidente americano chamar o Canadá de "pior país para negociar", buscando reduzir a dependência histórica do mercado americano sem abrir mão da soberania do país, um discurso que já rendeu elogios na Europa, mas que o próprio bloco europeu ainda hesita em seguir.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, viaja à Europa nesta semana em busca de uma relação mais próxima com a União Europeia, no momento em que o país atravessa uma guerra comercial com os Estados Unidos do presidente Donald Trump. No domingo, 13 de setembro, Trump havia chamado o Canadá de "pior país para negociar", afirmando que Ottawa estava "morrendo de vontade de fechar um acordo". Carney, por sua vez, tem evitado sinalizar pressa: segundo um funcionário canadense de alto escalão ouvido sob condição de anonimato, o país busca um acordo que permita a canadenses viver e trabalhar na Europa sem visto, como parte de uma parceria estratégica, mas as conversas formais só devem começar no mês que vem, e o próprio Carney pediu para não se esperar um anúncio de peso nesta viagem.
Uma "aliança única", não uma adesão
Carney já descartou publicamente qualquer intenção de o Canadá aderir à União Europeia, dizendo que o país busca, em vez disso, uma "aliança de segurança e econômica única" com o bloco. Segundo o funcionário canadense, Ottawa não pretende replicar os modelos que Noruega ou Suíça mantêm com a UE, tampouco aceitar o rótulo de "membro associado", termo usado em um relatório recente, a ideia é uma parceria sob medida para as prioridades canadenses, com o investimento no centro da proposta. Do lado europeu, a receptividade tem um limite conhecido: autoridades da UE querem aproximar o Canadá o máximo possível sem chamá-lo de membro associado, e a longa experiência das negociações do Brexit reforçou a resistência do bloco a qualquer arranjo que separe as chamadas "quatro liberdades" do mercado único, livre circulação de pessoas, serviços, bens e capitais. Por ora, a UE prioriza avanços mais imediatos em matérias-primas e energia.
A viagem coloca Carney de volta ao centro do palco europeu: ele será convidado de honra no discurso anual sobre o Estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nesta quarta-feira, e discursará ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na quinta. Segundo uma das reportagens, von der Leyen teria mudado às pressas seus planos para permanecer em Estrasburgo depois de ser criticada por uma decisão inicial, classificada como "inaceitável", de pular o discurso de Carney e retornar a Bruxelas. O próprio primeiro-ministro canadense já adiantou que as "discussões de aprofundamento real" só devem começar na cúpula Canadá-UE marcada para Montreal, no fim de outubro.

Cerca de 70% das exportações canadenses têm como destino os Estados Unidos, e é justamente essa dependência que Carney busca reduzir. "O núcleo disso, sim, tem um componente econômico, mas é sobre mais soberania", disse o primeiro-ministro nesta terça-feira. Em discurso em Davos, em janeiro, Carney já havia defendido que potências médias deveriam se unir em vez de se curvar a grandes potências, argumentando que negociar sozinho com uma potência hegemônica significa "negociar a partir da fraqueza" e "aceitar o que é oferecido", uma postura que, segundo ele, representa apenas "a encenação da soberania enquanto se aceita a subordinação". O discurso rendeu a Carney uma reprimenda pessoal de Trump na época, e uma nova defesa contundente da mesma tese na Europa pode reacender a tensão.
O Canadá, ao contrário da União Europeia, já retaliou as tarifas americanas e rejeitou termos que, segundo Carney, enfraqueceriam a soberania do país. A Europa, por sua vez, optou por não retaliar e aceitou um acordo que deixa a maior parte das exportações do bloco aos Estados Unidos sujeita a tarifas de até 15%, uma escolha que chama atenção justamente por partir do maior bloco comercial do mundo. Para Tobias Gehrke, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a Europa aceitou essa dor econômica na esperança de preservar o apoio americano à Otan e à Ucrânia, mas não obteve nem compromissos firmes de segurança nem uma relação estável com Washington; segundo ele, os próprios governos europeus devem observar de perto se a retaliação de outros países, como o Canadá, gera vantagem real ou apenas mais escalada e uma conta mais alta a pagar.
O ministro das Finanças canadense, François-Philippe Champagne, rejeitou a ideia de que a aproximação com a Europa seja apenas uma forma de pressionar Washington: segundo ele, o Canadá continuará fazendo negócios com os Estados Unidos mesmo enquanto constrói parcerias mais fortes em outros lugares. "O mundo mudou, e a América mudou. E acho que o mundo percebeu isso", disse Champagne à Associated Press.
Canadá e União Europeia já cooperam em comércio, defesa, energia, tecnologia e minerais críticos. O comércio bilateral somou cerca de US$ 147 bilhões (€ 127 bilhões) em 2025, segundo uma reportagem, tornando a UE o segundo maior parceiro comercial do Canadá; outra fonte apresenta um número próximo, mas não idêntico, € 130 bilhões em comércio de bens e serviços no mesmo ano, alta de 80% em relação a 2016, quando foi assinado o acordo de livre-comércio entre as partes (Ceta), sem que as fontes disponíveis expliquem a diferença entre os dois valores; de todo modo, ambas as cifras ficam muito abaixo do comércio entre Canadá e Estados Unidos, próximo de US$ 880 bilhões. Reforçando a aproximação, o Parlamento Europeu anunciou que abrirá um escritório em Ottawa, o décimo fora da União Europeia, com mandato regional que se estende ao Ártico, e o Canadá se tornou, neste ano, o primeiro país não europeu a integrar o programa de defesa SAFE da UE, de € 150 bilhões (US$ 173 bilhões), o que dá a empresas canadenses acesso a compras conjuntas de defesa do bloco.
Nem tudo, porém, caminha sem atrito. Dez países da União Europeia, entre eles França, Itália e Polônia, ainda não ratificaram o Ceta quase uma década depois de sua assinatura, deixando partes do acordo sem entrar em vigor. A parlamentar europeia francesa Valérie Hayer, aliada do presidente Emmanuel Macron, reconheceu o problema e cobrou dos líderes franceses mais responsabilidade no tema, apesar de considerar "extremamente bons" os números do comércio bilateral. O eurodeputado espanhol Javier Moreno Sánchez, que lidera a delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Canadá, pediu "passos concretos" da própria von der Leyen para ampliar a mobilidade de profissionais, os intercâmbios estudantis e a cooperação em defesa e inteligência artificial.
Investimento estrangeiro e protesto em casa
A viagem à Europa acontece pouco depois de Carney sediar, em Toronto, a primeira Cúpula de Investimentos do Canadá, na qual apresentou o país como um "porto seguro" para capital estrangeiro em meio à reorganização da economia global. No evento, o governo anunciou uma dedução fiscal corporativa que permite às empresas deduzir imediatamente 100% do custo de novos investimentos em uma gama maior de ativos do que antes, medida pensada para competir com incentivos semelhantes nos Estados Unidos, e confirmou que abrirá quatro grandes aeroportos do país a investimento estrangeiro. Carney também disse que o governo federal está no caminho para equilibrar o orçamento operacional um ano antes do previsto, e a Presidência do Conselho anunciou, antes da cúpula, quase C$ 500 bilhões em novos investimentos domésticos.
Nem todos veem esse movimento com bons olhos: milhares de pessoas se reuniram no centro de Toronto para o contraprotesto "Many vs the Money", questionando o uso de dinheiro público para reduzir riscos de investidores privados enquanto comunidades arcam com custos sociais e ambientais desses projetos. Um manifestante, Stephen Hill, que se identificou como parte de uma coalizão de investimento liderada por povos indígenas de British Columbia, disse não conseguir sequer uma resposta dos ministros do governo Carney, e pediu que o premiê pense "nos canadenses primeiro".
A movimentação de Carney em direção à Europa ocorre num momento em que, segundo analistas, a imprevisibilidade de Trump, incluindo suas tarifas, sua postura em relação à Otan e até comentários sobre a intenção de anexar a Groenlândia aos Estados Unidos, tem acelerado os esforços do Canadá e da própria Europa para diversificar seus laços econômicos e de segurança. Ian Lesser, do German Marshall Fund em Bruxelas, avalia que essa imprevisibilidade "deu um empurrão à história", embora reconheça que parte de Bruxelas ainda prefira acomodar Washington ou esperar para ver se as eleições legislativas americanas de novembro produzem um Congresso capaz de conter Trump. Antes de retornar da Europa, Carney também deve visitar o Reino Unido para se encontrar pela primeira vez com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, encontro que, segundo uma das reportagens, deve ocorrer à margem de uma partida de futebol do Everton, time do qual ambos são torcedores.





















