Petróleo dispara e juros nos EUA batem 5%, mas Ibovespa resiste à pressão global
Rendimento dos Treasuries de 10 anos supera 5% pela primeira vez desde 2007, enquanto o Brasil se prepara para cortar a Selic.

Os juros dos títulos americanos de 10 anos atingiram o maior nível desde 2007 nesta terça-feira, 15 de setembro, e o petróleo voltou a subir com o agravamento do conflito no Oriente Médio, derrubando as bolsas ao redor do mundo. Em meio a essa turbulência, o Ibovespa foi um dos raros índices a fechar em alta, um contraste que ganha ainda mais relevo porque, no dia seguinte, o Banco Central do Brasil deve cortar juros justamente quando o Federal Reserve caminha para o sentido oposto.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos romperam a marca de 5% nesta terça-feira, atingindo o maior patamar desde 2007, enquanto os de 30 anos chegaram a 5,40%, o mais alto desde 2003. O movimento se espalhou pelo mundo: os juros dos títulos japoneses de 10 anos se aproximaram de 3%, maior nível desde 1996, e os papéis longos do Reino Unido, da França e da Alemanha atingiram os maiores patamares desde 2007, 2008 e 2009, respectivamente, os títulos alemães de referência (Bunds) subiram a 3,56%, o maior nível em mais de 17 anos. Ao mesmo tempo, o petróleo Brent fechou acima de US$ 108 o barril, com contratos futuros de WTI e Brent subindo 4,4% e 2,9% no pregão, enquanto o diesel encerrou o dia em máxima histórica e o preço médio do combustível nos Estados Unidos chegou a um recorde de US$ 6,27 o galão.
A escalada dupla tem uma origem comum: o agravamento do conflito no Oriente Médio. Analistas atribuem parte da disparada do petróleo a uma nova onda de ataques dos rebeldes houthis, alinhados ao Irã, contra a Arábia Saudita, com o grupo avançando posições na costa oeste do Iêmen, às margens do Mar Vermelho, um front que se soma às restrições de oferta já provocadas, desde o fim de fevereiro, pelo bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz em resposta a ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Em alguns casos, cargas físicas de petróleo já são negociadas acima de US$ 130 o barril, perto do recorde registrado em abril. Esse choque energético, por sua vez, alimenta as pressões inflacionárias que devem levar o Federal Reserve a elevar juros nos Estados Unidos nesta quarta-feira, 16 de setembro, a primeira alta de juros americana em mais de três anos, depois de um período dominado por cortes. Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, o mercado já precifica 94,5% de chance de um aumento de 0,25 ponto percentual, ante 33,1% um mês atrás, à medida que dados recentes de inflação e a escalada de quase 25% no petróleo bruto americano nas últimas duas semanas reforçam o temor de uma inflação mais ampla e persistente. "Isso provavelmente não será um ajuste único, mas uma série de altas de juros. Vai depender do petróleo, que é realmente a origem da inflação e já começa a se espalhar para outras partes do mercado", disse Paul Nolte, estrategista da Murphy & Sylvest, à Reuters.

As três principais bolsas de Nova York fecharam em queda nesta terça: o Dow Jones recuou 0,63%, a 52.093,11 pontos; o S&P 500 caiu 0,45%, a 7.585,73 pontos; e o Nasdaq cedeu 0,78%, a 25.981,57 pontos. Das 11 principais categorias do S&P 500, o setor de consumo discricionário foi o que mais perdeu, enquanto a energia, favorecida justamente pela alta do petróleo, subiu cerca de 2,3%, na contramão do mercado. O índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia, um dos motores das altas da bolsa americana neste ano mal andou depois do tombo da véspera, avançando apenas 0,4%, em meio a preocupações crescentes com os riscos da inteligência artificial e à oposição cada vez maior à construção de novos data centers. No mundo todo, o índice MSCI de ações globais caiu a uma mínima de seis semanas, e o europeu Stoxx 600 recuou a seu menor nível desde 12 de junho.
Foi nesse cenário que o Ibovespa se destacou como exceção, ao fechar em alta de cerca de 0,7%, um comportamento pouco usual em dias de aversão a risco generalizada nos mercados globais, e que antecede diretamente a decisão de política monetária do Banco Central do Brasil.
Brasil vai na contramão do mundo
Enquanto o Fed caminha para elevar juros pela primeira vez em mais de três anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve fazer o movimento oposto nesta quarta-feira: um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo. Mesmo com essa sequência de reduções, os juros brasileiros seguem entre os mais altos do mundo entre as grandes economias: a taxa Selic real (descontada a inflação esperada) está pouco abaixo de 10%, ante uma máxima de 20 anos de mais de 11% registrada no início deste ano, e o rendimento real dos títulos soberanos brasileiros de 10 anos está em 10,5%, o maior desde 2008. Esta será a última reunião do Copom antes de o país ir às urnas, em 4 de outubro, numa eleição que promete um primeiro turno particularmente disputado.
Outras frentes que os mercados observam
No Japão, o Banco Central (BoJ) deve elevar sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 1,25%, ao fim de uma reunião de dois dias que termina na sexta-feira, e sinalizar novos apertos à frente, um movimento que busca sustentar o iene após uma intervenção ter revertido parte da desvalorização que levara a moeda a uma mínima de 40 anos em julho. Ainda assim, o dólar avançou pelo quinto dia seguido ante uma cesta de moedas nesta terça, reforçado pela perspectiva de juros mais altos nos EUA, e voltou a superar a marca de 155 ienes.
Na China, o setor industrial mostrou força renovada em agosto, impulsionado pelo boom tecnológico ligado à inteligência artificial, embora o consumo ainda fraco e um aprofundamento da retração nos investimentos reforcem receios sobre desequilíbrios mais profundos na economia chinesa. No campo diplomático-comercial, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e o vice-premiê chinês He Lifeng devem se reunir neste fim de semana, antes da cúpula prevista entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping em Washington, marcada para 24 de setembro, encontro que a China, até esta terça-feira, ainda não havia confirmado oficialmente que ocorrerá.
No Reino Unido, o Banco da Inglaterra deve anunciar, na quinta-feira, junto com sua decisão de juros, que vai parar de vender títulos de 20 e 30 anos como parte de seu programa de redução do balanço, medida que, segundo reportagem do jornal The Telegraph, aliviaria a pressão sobre os juros de prazo mais longo. A instituição não comentou a informação. Ao contrário do Fed e do Banco Central Europeu, que reduzem seus balanços deixando os títulos vencerem naturalmente, o Banco da Inglaterra tem conduzido vendas ativas de títulos e o fato de estar prestes a suspendê-las, somado ao movimento do Tesouro americano de triplicar a recompra de títulos longos, mostra como bancos centrais ao redor do mundo estão reagindo à disparada global dos juros de longo prazo.





















