Ataque a oleoduto saudita eleva preço do petróleo e expõe fragilidade das rotas de exportação do reino
Riad busca apoio diplomático no Egito enquanto tenta redirecionar embarques e enfrenta incertezas sobre o prazo de reparo da principal rota terrestre até o Mar Vermelho.

A Arábia Saudita cancelou cargas de petróleo para clientes europeus e busca reforços diplomáticos no Egito depois que um ataque a seu principal oleoduto, somado ao avanço de rebeldes houthis no Iêmen, colocou sob pressão simultânea as duas principais rotas marítimas de exportação do país.
Um ataque atribuído por Riad a milícias iraquianas ligadas ao Irã danificou, na sexta-feira, 11 de setembro, o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, a principal via terrestre de transporte de petróleo do reino até o Mar Vermelho, forçando sua paralisação e provocando cancelamentos de cargas para clientes europeus. Fontes do setor de comércio e transporte de petróleo disseram à Reuters que a Saudi Aramco, estatal saudita de petróleo, informou compradores europeus de que algumas cargas de setembro seriam canceladas, e que os carregamentos no porto de Yanbu, no Mar Vermelho, foram suspensos; a Aramco não comentou o assunto.
O oleoduto de 1.200 quilômetros, que atravessa a Península Arábica, vinha transportando entre 4 milhões e 5 milhões de barris por dia, de 4% a 5% da oferta mundial de petróleo, e funcionava havia seis meses como principal via de escoamento do petróleo do Oriente Médio, enquanto o Estreito de Ormuz permanecia em grande parte fechado por causa da guerra entre Irã e EUA. Ou seja: a rota que vinha poupando a Arábia Saudita do pior impacto do fechamento de Ormuz é agora a que sofreu o ataque, o que devolve ao reino o mesmo problema que ele vinha conseguindo, até aqui, evitar.
Diante disso, fontes do setor afirmam que a Arábia Saudita deve tentar escoar mais petróleo pelo próprio Estreito de Ormuz, recorrendo a chamados "carregamentos às escuras", embarques que ocultam origem ou destino para driblar riscos e sanções, um recurso que Emirados Árabes Unidos e Iraque já vêm utilizando e que tem permitido aos produtores do Golfo exportar entre 7 milhões e 9 milhões de barris por dia, de 30% a 40% dos volumes anteriores à guerra. Dados da consultoria Vortexa mostram um indício desse movimento: os terminais sauditas de Ras Tanura e Juaymah, no lado do Golfo, carregaram 22 milhões de barris em 12 navios na semana de 7 a 13 de setembro, ante uma média de 6 a 7 navios por semana nas três semanas anteriores.
O choque de oferta já se refletiu nos preços: os contratos futuros do petróleo Brent operavam perto de US$ 108 o barril, enquanto no mercado físico europeu o petróleo Brent datado, referência para cargas reais, era negociado ao redor de US$ 122 o barril, segundo dados da LSEG.

Há divergência sobre o prazo de reparo. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, disse à CNBC nesta terça-feira, à margem de uma reunião de energia do G20 em Houston, que o fluxo de petróleo pelo oleoduto deve ser restabelecido "em questão de dias", acrescentando que a Arábia Saudita está adotando medidas para escoar mais petróleo por Ormuz com apoio dos Estados Unidos. Fontes ouvidas pela Reuters, porém, deram estimativas bem mais conservadoras: uma delas disse que o conserto pode levar de cinco a seis semanas; outra avaliou que o reparo poderia ser mais rápido, com o oleoduto voltando a bombear parcialmente enquanto o restante do trabalho prossegue. Uma reportagem da Associated Press cita autoridades da região segundo as quais o oleoduto deve ficar praticamente fora de operação por semanas, o que tiraria do mercado vários milhões de barris diários, um prazo mais próximo das estimativas mais pessimistas do que da previsão otimista do governo americano.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Washington tem resistido a pedidos sauditas por uma intervenção militar direta, oferecendo até agora apenas apoio de inteligência. O presidente americano, Donald Trump, disse no fim de semana ter conversado por telefone com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, e afirmou que os houthis alinhados ao Irã, responsáveis por ataques com mísseis e drones contra o reino a partir do Iêmen, também teriam procurado Washington pedindo que os americanos ficassem fora do conflito.
Na Europa, a petrolífera estatal polonesa Orlen é uma das mais expostas ao corte saudita: a Aramco se tornou sua principal fornecedora em 2022 e hoje responde por cerca de 40% do petróleo processado pela companhia, uma diversificação que ajudou a Polônia a reduzir a dependência do petróleo russo, mas que criou, em contrapartida, uma dependência do fornecedor saudita. Segundo cinco fontes do setor ouvidas pela Reuters, a Orlen passou a buscar às pressas cargas alternativas do Mar do Norte e de outras origens, tendo adquirido, em leilões à vista na sexta-feira e na segunda-feira, petróleo dos tipos Grane, Johan Sverdrup e Johan Castberg (todos do Mar do Norte), além do WTI Midland americano e do CPC Blend cazaque. Nesta terça, a empresa abriu ainda uma nova licitação para comprar petróleo do Mar do Norte ou da Argélia com entrega em outubro, e petróleo da Guiana com entrega em novembro, cujos resultados ainda não haviam sido confirmados até o fechamento desta reportagem.
Em nota, a Orlen não comentou detalhes de transações comerciais específicas, mas afirmou gerenciar ativamente seu portfólio de fornecimento para garantir a operação contínua de suas refinarias, uma declaração da própria empresa, não uma confirmação independente de que o abastecimento seguirá sem sobressaltos. A companhia opera refinarias na Polônia, na Lituânia e na República Tcheca, e disse que as entregas de matéria-prima a suas unidades seguem, até agora, sem interrupção. Para dimensionar a exposição báltica ao petróleo saudita, o porto polonês de Gdansk recebeu cerca de 160 mil barris por dia de petróleo saudita neste ano, segundo a consultoria Kpler, e o porto lituano de Butinge, 63 mil barris por dia.
Enquanto tenta reorganizar sua logística de exportação, a Arábia Saudita enfrenta uma segunda ameaça às suas rotas marítimas, desta vez vindo do sul: rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, avançaram rapidamente no Iêmen na última semana, tomando o porto de Mocá, no Mar Vermelho, e três ilhas estratégicas dentro ou perto do Estreito de Bab-el-Mandeb, o ponto de estrangulamento na extremidade sul do Mar Vermelho por onde passa o petróleo saudita destinado aos seus maiores clientes na Ásia. Segundo a Associated Press, esses avanços fortalecem a capacidade dos houthis de bloquear esse estreito ao tráfego saudita, algo que o grupo já vem tentando fazer desde o fim de julho por meio de ataques a embarcações e à infraestrutura do reino, ataques que, segundo a reportagem, têm contribuído para pressionar ainda mais os preços globais do petróleo.
A ofensiva houthi abre uma nova frente na guerra no Oriente Médio e fortalece a posição do Irã, rival histórico da Arábia Saudita na região, que também tem atacado a navegação no Estreito de Ormuz. Diante desse cenário, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman viajou nesta terça ao Cairo para buscar o apoio do presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Em comunicado, o príncipe saudita afirmou que os dois líderes reafirmaram "o compromisso compartilhado de garantir a liberdade e a segurança da navegação marítima" no Mar Vermelho e no Bab-el-Mandeb; o gabinete de Sisi, por sua vez, divulgou nota destacando "a posição inabalável do Egito em apoio à Arábia Saudita". Nenhum dos dois lados detalhou publicamente medidas concretas a partir do encontro. Segundo a Associated Press, embora seja improvável que o Egito ofereça apoio militar direto aos sauditas, o país tem influência no mundo árabe e pode ajudar a mobilizar apoio político, papel que já vem exercendo como mediador nos últimos três anos de instabilidade na região, mantendo canais abertos com todas as partes, inclusive o Irã e seus aliados.





















