Guterres pede "grades de proteção" para IA antes de cúpula
Guterres pede "grades de proteção" para IA antes de cúpula dominada pela disputa tecnológica entre EUA e China IBTimes Brasil

O secretário-geral da ONU alertou que o mundo não pode se dar ao luxo de disputar uma corrida para o fundo do poço em segurança de inteligência artificial, um aviso que ganha urgência prática na semana em que Donald Trump recebe Xi Jinping em Washington, justamente quando a China parece estar reduzindo a distância tecnológica que a separava dos Estados Unidos.

Em sua última entrevista coletiva antes da abertura da semana de alto nível da Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira, 16 de setembro, o secretário-geral António Guterres dedicou parte de sua fala a alertar sobre os riscos do avanço acelerado da inteligência artificial. Segundo ele, um número crescente de especialistas que constroem essa tecnologia está soando o alarme de que o desenvolvimento avança mais rápido do que a compreensão de seus riscos, alguns pedem uma pausa, muitos pedem "grades de proteção". Para Guterres, cabe aos governos assumir a responsabilidade de proteger seus cidadãos também dos riscos da IA, mas isso não bastaria isoladamente: como a tecnologia "não para nas fronteiras", pausas voluntárias, isoladas e aplicadas de forma desigual não resolveriam o problema, sendo necessária coordenação internacional genuína. Reconhecendo as divisões geopolíticas atuais, o secretário-geral resumiu sua posição: "O mundo não pode se dar ao luxo de uma corrida para o fundo do poço em segurança de IA." A inteligência artificial, segundo ele, será um dos temas centrais de suas conversas com líderes mundiais na semana que vem, ao lado de outras prioridades que também marcaram sua coletiva, como o pedido por desescalada imediata no Oriente Médio, incluindo o restabelecimento pleno da liberdade de navegação nos estreitos de Ormuz e Bab-el-Mandeb, e o apelo por um cessar-fogo imediato na guerra da Ucrânia, hoje em seu quinto ano.

O apelo de Guterres por cooperação chega em um momento particularmente delicado: a disputa entre Estados Unidos e China pela supremacia em inteligência artificial deve pairar sobre o encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, previsto para a semana que vem em Washington. Os dois países veem os avanços em IA como decisivos para sua competitividade econômica e militar, mas seguem em desacordo em pelo menos três frentes: o acesso a chips avançados, acusações mútuas de cópia de tecnologia e a forma de regular o setor. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, deve se reunir neste fim de semana com o vice-premiê chinês He Lifeng para tratar de temas ligados à IA antes da cúpula entre os presidentes.

Uma das preocupações mais delicadas discutidas por especialistas de segurança dos dois países é o risco de que um sistema de IA interfira em uma rede de comando nuclear ou dispare uma operação cibernética militar, deixando o outro governo com poucos minutos para decidir se está sob ataque. Diante disso, especialistas americanos e chineses vêm propondo limites claros, como manter sistemas nucleares fora do alcance da IA, garantir controle humano sobre ciberataques consequentes e criar uma linha direta para incidentes envolvendo IA autônoma mas, questões como o que fazer para não confundir um acidente com um ataque deliberado ainda seguem em aberto.

Outro ponto de atrito é a chamada "destilação", técnica que usa a saída de modelos de IA maiores e mais caros para treinar modelos menores a um custo reduzido. Em setembro, o governo americano acusou seis empresas chinesas de copiar produtos de IA dos Estados Unidos por meio dessa técnica, afirmando que agiram "provavelmente com conhecimento do governo chinês" acusação semelhante já havia sido feita em abril, antes de uma visita de Trump a Pequim, e a embaixada chinesa em Washington a classificou, na ocasião, de "infundada". Do lado dos chips, os Estados Unidos impõem, desde 2022, amplas restrições à exportação de semicondutores avançados e equipamentos de fabricação para a China; há indícios de contrabando de chips avançados para o país, embora a escala não seja conhecida, e Washington avalia restringir o acesso remoto de empresas chinesas a data centers localizados em outros países, para impedir que se beneficiem de chips avançados da Nvidia mesmo tendo permitido, no fim do ano passado, a venda à China dos chips H200 da própria Nvidia, que não são os mais sofisticados disponíveis, mas ainda assim geraram preocupação entre setores mais céticos em Washington.

Na questão regulatória, as posições também divergem: Trump tem rejeitado publicamente pedidos por novas regras federais para IA, chegando a dizer nesta semana que bastaria ao país ter um presidente forte o que, segundo ele, os Estados Unidos já têm de sobra e classificando como "farsa" os pedidos de regulamentação feitos por executivos do setor. A China, por sua vez, já mantém regras sobre algoritmos de IA e sobre os dados usados para treiná-los, incluindo a exigência de que conteúdos gerados por IA sejam claramente identificados como tais.

Por trás dessas tensões diplomáticas está uma disputa tecnológica que parece estar mudando de figura. Segundo um relatório recente do Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano da Universidade Stanford, a China se consolidou como um contrapeso tecnológico aos Estados Unidos e, neste ano, parece estar reduzindo a vantagem americana, isso apesar das restrições impostas por Washington ao acesso chinês a chips de ponta e às máquinas usadas para fabricá-los. "A distância entre os modelos americanos e chineses é estreita e frágil", resumiu à Associated Press Samm Sacks, pesquisadora sênior do Instituto para a América, a China e o Futuro dos Assuntos Globais, ligado à Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins.

As estimativas mais tradicionais, atribuídas a autoridades americanas, costumam colocar os modelos chineses alguns meses atrás dos concorrentes dos Estados Unidos, em 2025, o então assessor de IA da Casa Branca, David Sacks, avaliou o atraso chinês entre três e seis meses; no início deste ano, o Departamento de Comércio americano calculou que o modelo V4 Pro, da DeepSeek, estava cerca de oito meses atrás dos modelos mais avançados do mundo. Mas, segundo a AP, cada vez mais vozes do próprio setor descrevem a disputa como um empate técnico. Em agosto, o presidente-executivo da Hugging Face, Clement Delangue, disse à emissora CNBC que a China já lidera a corrida entre os chamados modelos de peso aberto, aqueles cujos elementos centrais podem ser baixados, inspecionados e modificados publicamente, e que não estaria muito atrás nos modelos mais avançados do mercado. "Não me surpreenderia se eles passassem a dominar também nesse patamar até o fim deste ano ou no próximo, no ritmo atual de evolução", afirmou.

Empresas chinesas ilustram esse avanço. A startup pequinesa Moonshot AI surpreendeu o Vale do Silício com o lançamento do Kimi K3, que chegou a ocupar o terceiro lugar mundial em inteligência de modelos, segundo a plataforma de avaliação Artificial Analysis, logo atrás do Claude Fable 5, da Anthropic, e do GPT-5.6 Sol, da OpenAI, posição que já caiu para nona, atrás de novos modelos de ponta da própria Anthropic, da OpenAI, da Meta e da SpaceXAI, o que mostra como essa liderança pode ser instável. A DeepSeek, cujo modelo R1 já havia abalado os mercados globais no início de 2025 por seu custo bem mais baixo que o de rivais americanos, apresentou em abril uma prévia de seu modelo V4, com avanços em conhecimento, raciocínio e capacidades "agênticas" a habilidade de planejar e executar tarefas complexas de forma autônoma, com supervisão humana limitada. Já a startup Z.ai chamou atenção em junho com o GLM-5.2, comparado por analistas aos modelos mais avançados da Anthropic e da OpenAI, e evoluiu ainda mais em agosto com o GLM-5.3; e a gigante chinesa Alibaba apresentou, em julho, uma prévia de seu modelo Qwen3.8-Max, descrito pela própria empresa como o mais poderoso de sua linha.