Recuperação de corpos sob escombros em Gaza
Recuperação de corpos sob escombros em Gaza reacende suspeitas de crimes de guerra, diz ONU Canva

O alto comissário da ONU para os direitos humanos afirmou que famílias inteiras, muitas com mulheres e crianças, estão sendo encontradas sob prédios destruídos por ataques israelenses, e alertou que os corpos já recuperados podem ser apenas "a ponta do iceberg" de um total estimado em milhares de pessoas ainda soterradas.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou nesta terça-feira, 15 de setembro, que a recuperação de centenas de corpos dos escombros de prédios destruídos por ataques israelenses em Gaza reacendeu preocupações sobre possíveis crimes de guerra. Segundo Türk, o que parecem ser famílias inteiras têm sido desenterradas de locais destruídos durante a ofensiva israelense, e muitas das vítimas são mulheres e crianças. "É de partir o coração que os entes queridos de quem estava desaparecido há tanto tempo estejam apenas agora tendo seus piores temores confirmados", disse o comissário em comunicado, acrescentando que as descobertas reforçam preocupações já levantadas em um relatório da ONU de 2024, que apontou que ataques israelenses a prédios residenciais e outros locais civis nas primeiras semanas da guerra podem ter violado o direito internacional humanitário. O gabinete do primeiro-ministro israelense e o Ministério das Relações Exteriores de Israel não responderam de imediato ao pedido de comentário da Reuters; Israel tem repetidamente rejeitado as acusações de que ataca deliberadamente civis e afirma ter agido em conformidade com o direito internacional em sua ofensiva contra o Hamas.

A ofensiva israelense em Gaza, lançada depois do ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023, gerou cerca de 61 milhões de toneladas de escombros, que a ONU estima que podem levar até sete anos para serem removidos. Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos encerrou os combates em grande escala em outubro de 2025, mas não interrompeu ataques israelenses pontuais, que continuam a ocorrer enquanto as duas partes se acusam mutuamente de violar a trégua.

Segundo a Defesa Civil Palestina, mais de 630 corpos e restos mortais foram recuperados de prédios destruídos em toda a Faixa de Gaza desde novembro de 2025. As autoridades palestinas estimam que mais de 8 mil pessoas ainda permaneçam soterradas nos escombros, número que se aproxima, mas não coincide exatamente, com a estimativa de "mais de 10 mil" citada dias antes por outra especialista da ONU, Francesca Albanese, em comunicado de 7 de setembro; as fontes consultadas não explicam a diferença entre as duas cifras, possivelmente associada a estimativas feitas em momentos distintos. Türk afirmou temer que os corpos recuperados até agora sejam "apenas a ponta do iceberg", já que grandes áreas de Gaza foram arrasadas tanto pelos bombardeios israelenses quanto por operações posteriores de demolição e limpeza. Ele também acusou Israel de continuar nivelando algumas áreas de Gaza onde suas forças permanecem posicionadas, dizendo que escavadeiras operam "sem qualquer respeito pelos mortos sob os escombros".

Restrições dificultam buscas

Ajith Sunghay, chefe do escritório de direitos humanos da ONU para o Território Palestino Ocupado, afirmou que restrições israelenses à entrada de itens como kits de coleta de DNA e escavadeiras estão prejudicando os esforços de resgate e identificação. "O impacto coletivo da conduta de Israel está tornando quase impossível qualquer trabalho sistemático e em grande escala de busca, resgate e identificação", disse ele em entrevista coletiva em Genebra, acrescentando que equipes palestinas às vezes precisam escavar os escombros com as próprias mãos. As autoridades israelenses não responderam de imediato às alegações da ONU sobre restrições ao fornecimento de equipamentos; a agência militar israelense Cogat, responsável por controlar o acesso a Gaza, já justificou anteriormente restrições de longa data a itens que, segundo ela, poderiam ser usados para "construção de capacidade terrorista".

Segundo estimativas israelenses, o ataque liderado pelo Hamas em outubro de 2023 matou 1.200 pessoas em Israel, e outras 251 foram levadas como reféns. De acordo com autoridades de saúde de Gaza, mais de 73 mil palestinos foram mortos na campanha militar israelense desde então. Israel afirma ter adotado amplas medidas para evitar baixas civis e acusa o Hamas de usar civis de Gaza como escudos humanos em áreas densamente povoadas, acusação que o grupo nega. Türk pediu que investigadores internacionais tenham acesso a todas as áreas de Gaza para ajudar a preservar evidências, citando processos jurídicos em curso que examinam a conduta das partes durante a guerra.

O alerta paralelo sobre a remoção dos escombros

Dias antes, em 7 de setembro, a relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no território palestino ocupado, Francesca Albanese, já havia alertado que a remoção em grande escala de escombros em áreas sob controle militar israelense não pode se tornar uma forma de apagar vestígios de crimes ou impedir a recuperação e identificação de restos mortais. É importante notar que relatores especiais da ONU atuam como especialistas independentes, sem vínculo empregatício com a organização, e suas manifestações não representam necessariamente a posição oficial da ONU. Segundo Albanese, os escombros de Gaza contêm restos humanos e evidências físicas relevantes para a investigação de alegados crimes internacionais, "incluindo genocídio", uma caracterização feita por ela, não uma conclusão judicial. A relatora lembrou que, em janeiro de 2024, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) determinou que Israel tomasse medidas efetivas para evitar a destruição e garantir a preservação de provas relacionadas a alegações de violação da Convenção sobre o Genocídio, no âmbito de um processo movido pela África do Sul; em julho daquele mesmo ano, a CIJ também havia emitido um parecer consultivo sobre a ocupação israelense dos territórios palestinos.

Como exemplo do que está em jogo, Albanese citou o caso de uma operação de 17 dias que, em 4 de agosto deste ano, permitiu o sepultamento de 112 membros de uma mesma família extensa, recuperados de prédios destruídos em novembro de 2023 na Cidade de Gaza; os restos de outras 41 pessoas mortas no mesmo ataque nunca foram localizados. Segundo um relatório de outro especialista da ONU, o relator especial sobre o direito à moradia adequada, ao menos 92% das unidades habitacionais de Gaza, além de ampla infraestrutura civil, foram destruídas ou danificadas entre outubro de 2023 e outubro de 2025, uma escala de destruição que esse relatório classificou como sem precedentes na guerra moderna. Albanese afirmou ainda ter recebido, em agosto deste ano, informações de múltiplas fontes que indicariam uma operação deliberada de remoção, trituração e transporte de escombros em larga escala, incluindo o uso de máquinas pesadas fabricadas pela Caterpillar, pela HD Hyundai, pela Doosan e pela Volvo, e mencionou fontes israelenses que confirmariam conversas com empresas do país sobre demolição, remoção e reciclagem de entulho em grande escala, informações apresentadas por ela como recebidas de terceiros, não verificadas de forma independente pelas fontes consultadas. A relatora pediu que investigadores criminais internacionais supervisionem o processo de coleta de evidências antes de qualquer decisão sobre demolição ou remoção, e advertiu que atores estatais e empresas envolvidos na remoção de escombros poderiam incorrer em responsabilidade criminal internacional caso destruam provas de crimes internacionais.

O drama da identificação, um ano depois do início do cessar-fogo

O impasse em torno da identificação de corpos não é novo. Em outubro de 2025, logo após o início do cessar-fogo, que também trouxe a libertação de todos os reféns vivos e de cerca de 2 mil prisioneiros palestinos, em troca da devolução gradual dos restos mortais de 28 reféns mantidos pelo Hamas, Israel começou a devolver corpos de palestinos mortos durante a guerra, sem fornecer identificação e sem permitir a entrada de material para testes de DNA em Gaza, segundo reportagem da Associated Press da época. Famílias tiveram de reconhecer os corpos, muitas vezes decompostos, por cicatrizes, marcas de nascença ou roupas. As Forças Armadas israelenses disseram à agência que todos os corpos devolvidos até aquele momento eram de combatentes, afirmação que a reportagem não conseguiu verificar de forma independente; vários familiares que reconheceram corpos, segundo a mesma reportagem, disseram que seus parentes não eram combatentes. Um perito forense ouvido pela AP na ocasião, o professor emérito Stephen Cordner, da Universidade Monash, na Austrália, revisou fotografias de alguns corpos e disse que o fato de pulsos aparecerem amarrados atrás do corpo "seria incomum", classificando a situação como "uma emergência forense internacional" que mereceria investigação apropriada.