Fraude de Identidade com IA: ‘Golpe do Sósia’ Ameaça Segurança de Biometria Facial
Serasa Experian alerta sobre nova técnica de fraude que utiliza semelhança facial para burlar sistemas de segurança.

A equipe de inteligência analítica da Serasa Experian, uma das principais empresas de análise de crédito e prevenção de fraudes do Brasil, identificou uma nova modalidade de fraude de identidade que preocupa bancos, fintechs e empresas de todo o país: o chamado "golpe do sósia" (ou "golpe do duplo"). A técnica, detalhada na edição do relatório Mapa da Fraude referente ao primeiro semestre de 2026 e divulgada publicamente em 6 de setembro, consiste no uso de tecnologia de comparação facial para localizar pessoas reais com características físicas semelhantes às do próprio criminoso, com o objetivo de se passar por elas durante processos de validação biométrica.
De acordo com a Serasa Experian, os criminosos recorrem a ferramentas capazes de comparar o próprio rosto com imagens disponíveis em diferentes bases de dados — incluindo material obtido de forma ilícita — até encontrar uma correspondência com alto grau de similaridade, que, em alguns casos, pode chegar a 99%. Uma vez localizada uma identidade legítima com semelhança física suficiente, o fraudador escolhe essa pessoa como "vítima" e utiliza seus dados para tentar validar cadastros, abrir contas bancárias ou solicitar crédito, aproveitando-se do fato de que o próprio rosto do criminoso poderia superar os controles de reconhecimento facial desenvolvidos para confirmar que a pessoa que está se cadastrando é realmente a titular daqueles dados.
Leandro Bartolassi, diretor de Autenticação e Prevenção a Fraudes da Serasa Experian, explicou que essa novidade reflete a capacidade do crime organizado de instrumentalizar e explorar tecnologias que originalmente foram desenvolvidas para aumentar a segurança dos sistemas. A empresa destaca que os chamados "motores de comparação facial" — tecnologia inicialmente desenvolvida para fins legítimos de identificação — acabam sendo utilizados pelos fraudadores de forma inversa: em vez de servirem para confirmar uma identidade, funcionam como uma ferramenta de busca para encontrar a pessoa cuja identidade interessa ao criminoso roubar.
O fenômeno ocorre em um contexto de forte crescimento das tentativas de fraude de identidade no Brasil. Segundo dados do Mapa da Fraude, as soluções antifraude da Serasa Experian identificaram e bloquearam 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade durante o primeiro semestre de 2026, volume que representa um aumento de 32,9% em relação ao mesmo período de 2025. A empresa estima que esse número corresponda à detecção de uma ocorrência de alto risco a cada 5,5 segundos em todo o país. De acordo com os cálculos da companhia, as tentativas bloqueadas estavam associadas a um prejuízo potencial estimado em R$ 3,77 bilhões, dano que teria sido evitado graças à identificação precoce desses casos.
Diante desse cenário, a Serasa Experian recomenda que os consumidores adotem uma série de cuidados para reduzir o risco de exposição de seus documentos, fotografias e dados biométricos. Entre as principais recomendações estão: fornecer dados pessoais e biométricos somente em sites e aplicativos oficiais; proteger o celular e os aplicativos com senhas fortes e autenticação em dois fatores; desconfiar de solicitações inesperadas de reconhecimento facial recebidas por meio de links, e-mails, mensagens ou códigos QR; não permitir que desconhecidos fotografem seu rosto ou seus documentos pessoais; e evitar publicar imagens de documentos, mesmo quando parte das informações estiver ocultada. A empresa também recomenda que a biometria facial não seja utilizada como único mecanismo de verificação de identidade, mas combinada com outros fatores de autenticação capazes de dificultar esse tipo de falsificação de identidade.
O caso do "golpe do sósia" se soma a uma preocupação mais ampla que vem crescendo no Brasil em relação ao uso de inteligência artificial para fins fraudulentos. O cenário ganha ainda mais relevância em um ano marcado pelo processo eleitoral, no qual diferentes especialistas já vinham alertando para o risco de tecnologias de manipulação de imagens, áudios e vídeos serem utilizadas para enganar a população ou vulnerar sistemas de verificação de identidade, tanto no setor financeiro quanto em outros serviços digitais.
Para empresas e instituições financeiras, o desafio apresentado por essa modalidade é duplo: por um lado, revisar a robustez de seus sistemas de reconhecimento facial para que não dependam exclusivamente da semelhança física como critério de validação; por outro, incorporar camadas adicionais de análise — como o cruzamento de outros dados comportamentais ou relacionados ao dispositivo — que permitam detectar inconsistências mesmo quando o rosto apresentado conseguir superar o primeiro filtro biométrico.





















