Tensão no Báltico: caça da Otan derruba drone
Tensão no Báltico: caça da Otan derruba drone, enquanto navio russo mira helicóptero dinamarquês Google/canva

Os dois incidentes ocorreram horas depois de o secretário-geral da Otan alertar que ataques perto do território da aliança só reforçariam o apoio ao esforço de guerra da Ucrânia e reacenderam o temor de que a guerra na Ucrânia esteja, cada vez mais, extravasando para o território da aliança.

Um caça italiano em missão da Otan derrubou, na madrugada da terça-feira, 15 de setembro, um drone que havia entrado no espaço aéreo da Lituânia vindo de Belarus. O ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, disse que o aparelho "muito provavelmente" veio da Rússia, mas as autoridades lituanas afirmaram que ainda investigam a origem exata dos destroços. Uma fonte militar ucraniana disse à Reuters que os destroços fotografados no local se parecem com os de um Geran-2, drone de ataque de longo alcance amplamente usado pela Rússia; a própria Rússia não comentou o episódio de imediato, e o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse mais tarde não dispor de detalhes sobre o caso.

Segundo o centro lituano de gerenciamento de crises, o drone entrou no espaço aéreo do país pouco depois da meia-noite, vindo de Belarus, e foi abatido cerca de 90 quilômetros a noroeste de Vilnius, perto da vila de Pratkūnai e do reservatório de Kaunas. De acordo com o chefe do centro de crises, Vilmantas Vitkauskas, o aparelho permaneceu no espaço aéreo lituano por cerca de 30 minutos, sobrevoando a periferia de áreas povoadas antes de ser interceptado; um alerta de drone chegou a ser emitido em Vilnius, em Kaunas e nas regiões vizinhas. O ministro da Defesa da Lituânia, Robertas Kaunas, informou que um artefato explosivo foi detectado no drone e neutralizado por especialistas em desativação de bombas.

O caça que derrubou o aparelho pertence à missão de Policiamento Aéreo Báltico da Otan, que patrulha os céus da Lituânia, da Letônia e da Estônia desde que os três países bálticos ingressaram na aliança, em 2004; atualmente, aviões italianos operam a partir da base aérea de Šiauliai. Foi nesse contexto que o ministro Crosetto classificou o episódio como prova do valor da aliança atlântica para a Itália. Segundo a Reuters, caso se confirme a origem russa, seria o primeiro drone militar russo conhecido a entrar no espaço aéreo lituano desde o verão europeu de 2025, quando dois drones russos caíram no país acidentalmente; já a Associated Press descreve o episódio, de forma mais ampla, como a primeira vez que um drone é abatido no espaço aéreo lituano, independentemente de sua origem confirmada.

O caso lituano se soma a uma sequência de episódios que autoridades de outros países da Otan, Alemanha, Dinamarca, Reino Unido e Polônia, vêm atribuindo, nas últimas semanas, a ações russas, incluindo incursões de drones, sabotagem, incêndios criminosos e vigilância de instalações de defesa, além de um plano frustrado para usar um drone carregado de explosivos contra um aeroporto. Drones ucranianos também têm cruzado, de forma recorrente, o espaço aéreo báltico nos últimos meses segundo Kiev, desviados de rota por interferência de sinal russa, o que tem alimentado o temor de que a guerra da Ucrânia esteja se espalhando para o território da aliança. A própria missão de Policiamento Aéreo Báltico já havia abatido drones ucranianos perdidos sobre a Estônia em maio, e sobre a Letônia em junho e em agosto.

No mesmo dia, a Dinamarca informou que um de seus helicópteros da força aérea foi alvo de sinalizadores disparados por um navio russo enquanto realizava, segundo Copenhague, uma cobertura fotográfica de rotina de uma fragata russa nas águas do Mar Báltico, próximo ao porto de Gedser. O Ministério das Relações Exteriores dinamarquês classificou o episódio, em publicação na rede social X, como "completamente inaceitável" e convocou o embaixador russo no país para prestar esclarecimentos. Já o embaixador da Rússia na Dinamarca, Vladimir Barbin, respondeu que não seria a primeira vez que helicópteros da força aérea dinamarquesa realizam "manobras perigosas" perto de navios de guerra russos, e descreveu a ação do helicóptero dinamarquês como uma "provocação" contra a fragata russa, uma versão que contradiz diretamente a explicação dada por Copenhague, sem que haja, até o momento, uma apuração independente que confirme uma das duas versões.

A reação política

Um dia antes dos dois episódios, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, já havia afirmado que ataques próximos ao território da aliança demonstravam "o desespero" do presidente russo, Vladimir Putin, e "seu desejo de semear medo e terror", declaração feita depois que um drone russo atingiu, no domingo, uma linha ferroviária perto da fronteira entre Ucrânia e Polônia, pouco depois de um trem diplomático que levava autoridades europeias, incluindo o ex-premiê britânico Boris Johnson e o ex-premiê sueco Carl Bildt, deixar a estação de Yahodyn antes do horário previsto, segundo a operadora ferroviária estatal ucraniana. Rutte prometeu reforçar as defesas dos 32 países da aliança ao longo de sua extensa fronteira leste com a Rússia e com Belarus, aliada de Moscou. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou os incidentes na Lituânia e na Dinamarca como parte de "um padrão mais amplo de agressão e provocação russa contra a Europa", que estaria testando "nossa prontidão e nossa determinação" segundo ela, a resposta europeia à Rússia só tende a se fortalecer.

Os dois episódios ocorrem em meio a uma escalada mais ampla na guerra entre Rússia e Ucrânia, com ataques russos contínuos ao território ucraniano e uma disputa diplomática paralela sobre um suposto acordo, anunciado sem detalhes pelo presidente americano Donald Trump, para que os dois países parassem de atingir mutuamente sua infraestrutura energética, acordo cujo cumprimento nenhuma das partes confirmou integralmente.