Uso Tradicional Do Fogo Ajuda A Proteger O Cerrado
Estudo da UnB analisou práticas de quatro comunidades na Chapada dos Veadeiros e defende políticas que considerem o conhecimento ecológico tradicional.
O uso controlado do fogo por comunidades tradicionais pode desempenhar um papel na agricultura familiar e na prevenção de grandes incêndios no Cerrado. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa conduzida por pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), em parceria com a Rede Biota Cerrado, a partir da análise de práticas adotadas por comunidades Kalunga na Chapada dos Veadeiros, em Goiás.
O estudo, publicado neste semestre na revista científica Fire Ecology, analisou quatro comunidades e comparou seus conhecimentos e percepções com dados climáticos acumulados durante 44 anos. Segundo a UnB, a pesquisa identificou um mosaico formado por áreas de cultivo, terrenos em pousio e regiões destinadas à pecuária. Essa alternância contribui para interromper a continuidade de materiais secos, como capins, que favorecem a propagação do fogo.
Fogo Como Ferramenta De Manejo
Entre as práticas observadas está o uso do fogo nas chamadas roças de toco, onde as queimadas ajudam a limpar o terreno e as cinzas contribuem para a nutrição do solo. Em áreas de vegetação nativa, as queimadas controladas também são utilizadas para reduzir o acúmulo de capim seco e estimular a rebrota utilizada na alimentação do gado.
De acordo com a pesquisa, o manejo tradicional considera fatores como as condições climáticas, o tipo de vegetação, o período adequado para a queima e a possibilidade de monitoramento. A UnB descreve esse conhecimento como uma forma de governança socioecológica, combinando produção agrícola, monitoramento comunitário e redução da continuidade do material combustível.
A pesquisa também aponta mudanças ambientais que dificultam essas práticas. Os dados analisados registraram aumento de temperatura de 0,27 °C por década nos territórios Kalunga, acompanhado por menor umidade relativa, redução das chuvas e aumento dos ventos durante a estação seca. Essas alterações coincidem com a percepção dos agricultores sobre maior instabilidade para realizar o manejo do fogo.
Prevenção Em Um Cenário De Maior Risco
O contexto atual reforça a relevância do debate. Em 26 de setembro, o Canal Rural informou que o aumento do risco de incêndios no Centro-Oeste exige atenção reforçada durante o período seco. A publicação citou 399 municípios sob alerta do governo federal e destacou medidas como manutenção de aceiros e acompanhamento das condições meteorológicas.
Diante desses resultados, as pesquisadoras defendem políticas que não tratem todo uso do fogo da mesma maneira. O estudo propõe integrar o conhecimento ecológico tradicional das comunidades aos critérios técnicos de gestão do Cerrado, em vez de adotar restrições gerais que desconsiderem as características de cada território.






















