O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, no Equador
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, no Equador REUTERS/Karen Toro

Um grupo de 31 parlamentares norte-americanos enviou nesta quinta-feira (24) uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual acusam o governo de Donald Trump de interferir no processo eleitoral brasileiro e exigem explicações sobre uma série de medidas adotadas contra o Brasil nos últimos meses. O documento, revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado por outros veículos de imprensa, foi articulado pela deputada democrata Delia Ramirez e conta entre seus signatários com nomes de destaque da ala progressista, como o senador independente Bernie Sanders e as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) e Pramila Jayapal, além dos deputados Chuy Garcia, Jonathan Jackson, Greg Casar e Maxwell Frost.

Na carta, os parlamentares manifestam grave preocupação com o que descrevem como um esforço coordenado do governo norte-americano para ameaçar a aliança estratégica com o Brasil e desestabilizar a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental, às vésperas das eleições presidenciais previstas para outubro de 2026. Os congressistas afirmam que as medidas mais recentes do governo Trump apontam para uma aparente tentativa de interferir e potencialmente enfraquecer as eleições gerais brasileiras.

Entre os episódios citados no documento estão os dois pacotes de tarifas impostos por Trump sobre produtos brasileiros, as sanções aplicadas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e outros integrantes da Corte e do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, além da classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. Segundo os parlamentares, autoridades brasileiras temem que essa medida possa ser usada como pretexto para novas sanções e ações extraterritoriais.

O texto também menciona a reunião no Salão Oval entre Trump e o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, realizada em maio, durante a qual o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro teria solicitado aos Estados Unidos que classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organização terrorista. Segundo os signatários, a nomeação de Darren Beattie para supervisionar as relações com o Brasil dentro da diplomacia norte-americana interrompeu o processo de distensão que havia sido alcançado após conversas diretas e cordiais entre Trump e Lula.

Os parlamentares contrastam a atual postura de Washington com a adotada no processo eleitoral brasileiro anterior, quando os Estados Unidos reconheceram rapidamente o resultado das urnas e manifestaram apoio às instituições brasileiras após os ataques às sedes dos Três Poderes, em janeiro de 2023. Segundo o documento, o governo Trump agora atua como agente de interferência e desestabilização na América Latina, em um padrão que os signatários consideram mais amplo e preocupante de ingerência em processos eleitorais da região.

Os signatários exigem que o Departamento de Estado se comprometa explicitamente a reconhecer o resultado certificado das eleições brasileiras e deram prazo até 1º de outubro para que Washington responda a um conjunto de perguntas apresentadas na carta. Sanders, que se reuniu nesta semana com Lula à margem da Assembleia Geral da ONU, teria perguntado diretamente ao presidente brasileiro sobre o risco real de interferência. Segundo pessoas próximas ao encontro, Lula respondeu que seu governo permanece vigilante, embora não acredite que a interferência venha a se concretizar.