Pesquisa inédita no Brasil vai rastrear baleias-jubarte por satélite e mapear risco de colisões com navios no Espírito Santo
Transmissores instalados durante a temporada reprodutiva de 2027 vão cruzar os deslocamentos dos animais com as rotas do tráfego marítimo no litoral capixaba.

Dez baleias-jubarte serão equipadas com transmissores de localização durante a temporada reprodutiva de 2027 para que pesquisadores possam acompanhar, via satélite, os deslocamentos dos animais ao longo do litoral do Espírito Santo, no Sudeste do Brasil. O objetivo do projeto é identificar possíveis pontos de encontro entre as baleias e as rotas de grandes embarcações, produzindo dados que possam contribuir para reduzir o risco de colisões.
Área de estudo bem delimitada
A área analisada abrange o litoral entre os municípios de Serra, Vitória, Vila Velha e Guarapari, avançando pela plataforma continental até aproximadamente 23 milhas náuticas da costa.
Durante o trabalho de campo, os pesquisadores buscarão entender como diferentes grupos de baleias-jubarte utilizam essa faixa marítima enquanto permanecem em águas brasileiras para se reproduzir, dar à luz e amamentar os filhotes.
Primeiro estudo desse tipo no Brasil
O trabalho é considerado inédito no país pelo objetivo específico de acompanhar o deslocamento das baleias durante toda a temporada reprodutiva e cruzar essas informações com dados sobre a movimentação de embarcações na região.
Até agora, outras iniciativas de monitoramento na costa brasileira se concentraram principalmente no levantamento populacional ou em sistemas de observação visual realizados a partir de terra ou de embarcações. O novo projeto pretende avançar para um acompanhamento individualizado por satélite combinado com dados do tráfego marítimo.
Ferimentos acenderam o alerta
O interesse em estudar a relação entre as baleias-jubarte e o tráfego marítimo também está relacionado a registros anteriores no litoral capixaba.
Segundo os pesquisadores, há imagens de baleias com cortes, cicatrizes e outras lesões compatíveis com possíveis colisões com embarcações. Um dos casos documentados envolve uma fêmea acompanhada de um filhote, avistada em Guarapari em 2024.
Uma avaliação veterinária citada pelo projeto indicou que os ferimentos apresentavam estágio avançado de cicatrização, sugerindo que o acidente teria ocorrido entre seis e oito meses antes do avistamento.
Não foi possível determinar o local exato da possível colisão. O animal poderia ter sido atingido durante a migração, em alguma região portuária brasileira ou até mesmo em alto-mar, no trajeto entre o Brasil e as áreas de alimentação nas águas antárticas.
Aumento da população amplia desafio
A recuperação da espécie nas últimas décadas, após ter sido fortemente reduzida pela caça indiscriminada ao longo do século XX, trouxe um novo desafio: mais baleias passaram a circular por áreas marítimas cada vez mais movimentadas por navios de carga, cruzeiros e embarcações de apoio à indústria offshore.
O Espírito Santo possui intensa atividade portuária e industrial, o que aumenta os pontos de interação entre a fauna marinha e a navegação comercial.
Experiência de cooperação na região
O Espírito Santo já possui iniciativas voltadas à redução desse tipo de risco. O sistema portuário de Vitória, operado pela Vports, utiliza um sistema de monitoramento do tráfego marítimo (VTMIS) para orientar as embarcações durante a temporada das baleias-jubarte, em parceria com o Instituto Baleia Jubarte e a organização internacional Great Whale Conservancy.
Entre as recomendações resultantes dessa cooperação estão evitar a navegação noturna sempre que possível, garantir a plena capacidade de manobra das embarcações e reduzir a velocidade para menos de oito nós em áreas próximas ao porto.
O que o novo projeto pretende alcançar
Com o rastreamento por satélite, os cientistas esperam produzir um mapa de risco mais preciso, capaz de indicar os trechos da plataforma continental onde ocorre maior sobreposição entre as rotas das baleias e as rotas das embarcações.
As informações poderão servir de base para futuras medidas, como ajustes em corredores de navegação, limites de velocidade e protocolos de alerta antecipado.
A expectativa é que os resultados também possam contribuir para ampliar, no Espírito Santo, medidas semelhantes às já adotadas voluntariamente em outras regiões do litoral brasileiro, como São Sebastião, em São Paulo, e a própria área portuária de Vitória.





















