Brasil aposta em IA por dois flancos
Brasil aposta em IA por dois flancos: governo mira supercomputador entre os 10 mais potentes do mundo, e bancos vão investir R$ 3 bilhões IBTimes Brasil

Em uma mesma semana, o governo federal anunciou recursos para construir infraestrutura própria de inteligência artificial equilibrando tecnologia americana e chinesa, enquanto uma pesquisa do setor bancário revelou que as instituições financeiras planejam acelerar seus próprios investimentos em IA, nuvem e cibersegurança.

O governo brasileiro anunciou, em 24 de agosto, um plano de investimento de cerca de R$ 2,3 bilhões (US$ 444 milhões) para fortalecer a infraestrutura nacional de inteligência artificial, combinando tecnologia de empresas americanas e chinesas. Um dia depois, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou, durante o evento Febraban Tech, os resultados da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, elaborada pela consultoria Deloitte, segundo a qual os bancos do país devem investir cerca de R$ 3 bilhões em inteligência artificial, analytics e big data neste ano, 8% a mais que em 2025. As duas iniciativas, embora independentes, ilustram o mesmo movimento: tanto o setor público quanto o privado no Brasil aceleram apostas em IA, em um momento de disputa global por essa tecnologia entre Estados Unidos e China.

Segundo o anúncio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o objetivo do plano é ampliar a capacidade de processamento de dados do país evitando depender de uma única potência tecnológica. Mais da metade dos recursos, cerca de R$ 1,3 bilhão, será destinada a um projeto de infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, desenvolvido em parceria com as empresas chinesas Huawei Technologies e iFlytek, voltado principalmente ao desenvolvimento de grandes modelos de linguagem para uso geral e para setores específicos da economia. Os R$ 1 bilhão restantes serão usados em uma licitação para a compra de um novo supercomputador, com a meta de colocar o Brasil entre os dez países com as máquinas de processamento de IA mais potentes do mundo.

Funcionários brasileiros que pediram anonimato disseram esperar que essa licitação seja vencida pela fabricante americana de chips Nvidia, expectativa que a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, já havia adiantado na semana anterior ao jornal Folha de S.Paulo. Se isso se confirmar, o Brasil somaria à infraestrutura construída com empresas chinesas um componente de tecnologia americana, numa tentativa deliberada de equilíbrio entre as duas potências. "A estratégia consiste em não depender de uma única empresa, tecnologia ou país", afirmou o governo brasileiro, ao justificar essa combinação. O movimento ocorre em meio à disputa entre Washington e Pequim pela liderança em semicondutores, centros de dados e inteligência artificial, e busca posicionar o Brasil como um dos principais players latino-americanos no desenvolvimento de infraestrutura e modelos próprios de IA.

Enquanto o governo constrói sua própria infraestrutura, o setor bancário acelera a adoção da tecnologia em suas operações. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, os R$ 3 bilhões previstos para IA, analytics e big data neste ano fazem parte de um total de R$ 50 bilhões que os bancos brasileiros pretendem investir em tecnologia em 2026, cifra já divulgada em junho, na primeira etapa do levantamento. Os investimentos em migração para nuvem devem ser ainda maiores em termos de crescimento: R$ 3,9 bilhões, alta de 30% em relação ao ano anterior. "Os investimentos dos bancos em IA, Analytics, Big Data e Cloud demonstram o compromisso do setor com inovação, eficiência e segurança. Mas o diferencial está nas pessoas", disse Rodrigo Mulinari, diretor responsável pela pesquisa, ao destacar que os bancos também ampliam recursos para capacitação: R$ 29,4 milhões estão previstos para treinamento em IA e IA generativa neste ano, aumento de 31%, depois de R$ 100,4 milhões investidos em treinamentos de tecnologia no ano passado, que capacitaram 226,1 mil profissionais do setor.

Essa expansão tecnológica já se reflete no quadro de pessoal: 42% dos bancos consultados pretendem ampliar o número de profissionais de TI, com crescimento médio de 22%, embora hoje esse grupo represente, em média, apenas 11% do total de funcionários das instituições. Os perfis mais disputados em 2025 foram desenvolvedor de software, engenheiro de IA, engenheiro de dados, arquiteto corporativo e engenheiro de DevOps.

A pesquisa também mostra que a expansão da inteligência artificial no setor caminha ao lado de um reforço na proteção de dados: 58% das instituições já têm ao menos um especialista em cibersegurança em seu conselho de administração, e 88% dos bancos já integram de forma consolidada as áreas de cibersegurança, prevenção a fraudes e prevenção à lavagem de dinheiro, atuando em conjunto na resposta a incidentes (40% dos casos) ou no compartilhamento direto de informações entre equipes (36%). Entre os recursos voltados à proteção do cliente, destacam-se a autenticação multifator, presente em 88% das instituições, o monitoramento preditivo de transações (76%), a biometria comportamental (60%) e o uso de IA e machine learning na detecção de fraudes (56%). Olhando mais à frente, 71% dos bancos já consideram a computação quântica uma tecnologia de alta relevância no curto ou médio prazo, com foco em criptografia e segurança pós-quântica. "A cibersegurança é um eixo central e prioritário da agenda tecnológica dos bancos", resumiu Ivo Mósca, diretor de Inovação, Produtos e Segurança da Febraban.

Segundo o levantamento, 92% dos bancos apontam o ganho de velocidade em tarefas rotineiras como o principal benefício percebido da inteligência artificial, enquanto 52% destacam redução no tempo de resposta ao cliente, corte de custos e mais eficiência na análise de dados, e 48% citam ganhos na detecção de fraudes. Entre as aplicações mais comuns de agentes de IA generativa estão a automação de processos internos (76% dos bancos), o atendimento via chatbots e voicebots (71%), a geração de relatórios e documentos (71%), e, em menor escala, a criação de conteúdos de marketing e o suporte a equipes internas (53% cada). A pesquisa aponta ainda que 84% das instituições já utilizam IA e IA generativa em suas infraestruturas de TI, e que 70% têm ou estão desenvolvendo estratégias de requalificação profissional para lidar com essa transição.

O levantamento também traz indicadores de uso pelos clientes: em 2025, cerca de 24 milhões de pessoas fizeram transações nos marketplaces dos bancos, com volume médio de vendas de quase R$ 20 milhões, e o número de usuários de funcionalidades de gestão financeira agregada cresceu 31%, chegando a 2,15 milhões de clientes, recurso hoje oferecido por 33% dos bancos. Já 92% das instituições veem no Open Finance uma oportunidade de acesso a dados financeiros, 85% o associam a campanhas mais direcionadas e 69% a uma maior competitividade nas ofertas. "O setor bancário brasileiro entra em uma nova fase da transformação digital, marcada pela convergência entre Data & AI, GenAI, Cloud e Cyber", avaliou Sergio Biagini, sócio-líder de Banking & Capital Markets da Deloitte, para quem o desafio agora é integrar essas tecnologias à estratégia de negócios das instituições.