Indústria brasileira avança 0,2% em julho, interrompendo quedas consecutivas
Indústria brasileira registra leve crescimento em julho, mas ainda enfrenta desafios.

A produção industrial brasileira avançou 0,2% em julho em relação a junho, segundo a série com ajuste sazonal da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta quarta-feira (2/9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado interrompe dois meses consecutivos de retração e representa o melhor desempenho para o mês de julho desde 2022, quando a indústria havia avançado 1,0%.
Apesar da melhora mensal, o resultado ficou abaixo das expectativas do mercado: os analistas consultados pela Reuters projetavam alta de 0,6% na comparação mensal e estabilidade na comparação anual. Na comparação com julho de 2025, porém, a produção recuou 0,5%.
No acumulado de 2026, a atividade industrial registra crescimento de 1,1%, enquanto nos últimos 12 meses a expansão é de 0,6% — uma "leve perda de ritmo" em relação ao acumulado até junho (0,7%), segundo o próprio IBGE. A média móvel trimestral, que ajuda a identificar a tendência recente do setor, caiu 0,8% no trimestre encerrado em julho.
O gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo, destacou que o avanço de julho não representa uma mudança de trajetória, mas apenas uma interrupção da sequência negativa, uma vez que não recupera as perdas acumuladas nos dois meses anteriores.
Desempenho por categorias econômicas
Três das quatro grandes categorias econômicas registraram altas em julho. Os bens de consumo duráveis apresentaram o maior crescimento, de 3,2%, impulsionados por automóveis, eletrodomésticos da linha branca e motocicletas. Os bens de capital subiram 2,4%, enquanto os bens de consumo semiduráveis e não duráveis avançaram 0,5%. Os bens intermediários foram a única categoria a apresentar resultado negativo, com queda de 0,2%.
Entre os segmentos específicos, os principais impactos positivos vieram de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+12,2%), produtos alimentícios (+1,0%) e coque, derivados de petróleo e biocombustíveis (+1,1%).
Em sentido contrário, as indústrias extrativas recuaram 1,0% em relação a junho — terceira queda consecutiva, pressionada pela produção de minério. Os setores de impressão e reprodução de gravações (-17,2%), produtos diversos (-9,0%), metalurgia (-1,4%), produtos químicos (-0,8%) e celulose e papel (-1,3%) também exerceram pressão negativa sobre o resultado.
O índice de difusão mostrou que 69,6% dos 789 produtos pesquisados pelo IBGE apresentaram desempenho positivo entre junho e julho.
O impacto da Selic elevada
André Macedo atribuiu a perda de dinamismo da indústria à política monetária restritiva. Embora a Selic tenha passado por um leve corte recentemente, permanece em 14% ao ano, um nível que continua dificultando as decisões de investimento das empresas e o consumo das famílias.
Na mesma linha, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) apontou que o segmento de bens de capital — um dos mais afetados pelas taxas elevadas — acumulou quedas na comparação anual em 6 dos 7 meses do ano, apesar da reação pontual registrada em julho (+2,4% na comparação mensal). A queda é ainda mais intensa entre os bens de capital agrícolas (-20,7% no ano) e os bens de uso misto (-15,6%).
Contexto com o PIB
O dado de julho foi divulgado um dia depois de o IBGE informar que o PIB do Brasil cresceu apenas 0,5% no segundo trimestre de 2026, ante 1,1% no primeiro trimestre. No período, a indústria avançou apenas 0,1%, após expansão de 1,2% no trimestre anterior — mais um sinal de desaceleração da atividade econômica em geral.
Avaliação dos economistas
André Valério, economista sênior do banco Inter, avaliou que o cenário da produção industrial "segue delicado", apesar da recuperação registrada em julho, e que os resultados recentes apontam para uma inflexão negativa. Diante do ambiente adverso e das taxas de juros elevadas, espera-se uma moderação adicional do crescimento industrial no restante do ano.
Nível histórico
A recuperação registrada em julho deixa a indústria brasileira 2,1% acima do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020, embora ainda esteja 15% abaixo de seu ponto mais alto da série histórica, registrado em maio de 2001.












