Governador Tarcísio de Feitas em lançamento do ‘Provão Paulista’
Governador Tarcísio de Feitas em lançamento do ‘Provão Paulista’ Cecília Bastos/USP Imagens

São Paulo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta segunda-feira (21) que avalia ampliar o número de vagas universitárias oferecidas por meio do Provão Paulista, exame seriado de acesso ao ensino superior criado por sua gestão em 2023. Segundo o governador, o bom desempenho dos estudantes que participaram das provas neste ano permite abrir uma discussão com os reitores das universidades públicas paulistas — USP, Unicamp e Unesp — sobre uma eventual ampliação da oferta. Atualmente, são cerca de 15 mil vagas distribuídas entre essas instituições, a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) e as Faculdades de Tecnologia (Fatecs) do Centro Paula Souza.

O anúncio ocorre em um momento delicado para o principal programa da gestão Tarcísio na área da educação. Nas últimas semanas, um estudo da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), formada por professores e pesquisadores de universidades públicas paulistas e do Instituto Federal de São Paulo, identificou pelo menos 4.305 resultados considerados "extraordinariamente elevados e improváveis" entre alunos do terceiro ano do ensino médio da rede estadual, referentes às edições de 2023, 2024 e 2025 do exame.

Os casos apontados envolvem saltos de aproximadamente 20 pontos de um ano para o outro, equivalentes a três desvios-padrão acima do esperado estatisticamente. Segundo os pesquisadores, esse padrão não foi observado na mesma proporção entre estudantes das Etecs ou das redes municipais de ensino.

De acordo com o levantamento, metade das anomalias estava concentrada em apenas 50 das 3.594 escolas estaduais analisadas. Em algumas unidades, mais de 90% dos alunos avaliados apresentaram resultados fora dos parâmetros considerados normais.

O estudo também cruzou as listas de convocação para as universidades com a origem escolar dos candidatos selecionados. Dos 14.271 estudantes da rede estadual aprovados no primeiro semestre de 2026, 11,3% eram de escolas onde mais de 20% dos resultados foram classificados como atípicos.

A Secretaria da Educação de São Paulo (Seduc-SP) contestou a interpretação de fraude sistêmica apresentada pelos pesquisadores. O órgão afirmou que os resultados atípicos identificados não equivalem a casos comprovados de manipulação e questionou a relação direta entre esses números e o total de vagas oferecidas pelo Provão Paulista.

Como argumento, a Seduc apresentou uma análise complementar segundo a qual várias das escolas mencionadas no estudo também registraram avanços em matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame federal independente do governo estadual. Para a secretaria, esse dado poderia indicar que parte da melhora observada nos resultados corresponde, de fato, a avanços na aprendizagem.

Em meio à controvérsia, a proposta de Tarcísio de ampliar as vagas provocou questionamentos entre especialistas em educação, que defendem a necessidade de esclarecer primeiro a origem das irregularidades antes de expandir um mecanismo de seleção utilizado para o ingresso em algumas das principais universidades do país.

O próprio edital do Provão Paulista 2026 já foi publicado pelo governo estadual, com cerca de 15,8 mil vagas para ingresso em 2027. Até o momento, não foram anunciadas mudanças substanciais na metodologia de aplicação ou correção das provas para evitar a repetição dos padrões identificados pela Repu.