O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante Agência Brasil

São Paulo. O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, criticou nesta quarta-feira a proposta do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de incluir os Estados Unidos no processo de transição de governo caso vença as eleições brasileiras. Segundo Mercadante, essa participação colocaria em risco informações sensíveis do Estado.

O alerta durante evento do Banco Safra

Durante a 5ª edição da J.Safra Investment Conference, organizada pelo Banco Safra em São Paulo, Mercadante explicou que uma equipe de transição presidencial tem acesso a dados sobre defesa, minerais críticos, diplomacia, finanças, Banco Central e o sistema de pagamentos Pix. Ele questionou como seria possível abrir esse tipo de informação a outro país e alertou que o Brasil poderia acabar enfrentando uma tarifa de 50% enquanto parte da população comemora com símbolos ligados ao movimento MAGA, algo que considerou insustentável.

O presidente do BNDES afirmou que uma transição de governo envolve o acesso a informações privilegiadas sobre recursos naturais, infraestrutura e segurança nacional. Para ele, compartilhar esses dados com uma potência estrangeira representaria um risco direto à soberania do país.

O risco de "neocolonialismo"

Mercadante também alertou para a possibilidade de o Brasil entrar em um processo de "neocolonialismo digital" e perder autonomia sobre seus recursos estratégicos. Ele questionou os termos apresentados pelo governo dos Estados Unidos para encerrar o pacote tarifário aplicado aos produtos brasileiros e rejeitou a ideia de que decisões nacionais sobre a exploração de recursos naturais tenham de ser previamente consultadas com Washington.

O presidente do BNDES lembrou que o Brasil viveu 400 anos como colônia e afirmou que o país não pode repetir esse padrão de dependência na era digital nem no âmbito regional. Ele defendeu que, devido à sua dimensão territorial, econômica e mineral, o Brasil precisa desenvolver uma estratégia própria diante da disputa internacional por matérias-primas essenciais às novas tecnologias, como as terras raras.

Contexto: a nova política de minerais críticos

A declaração ocorre dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, legislação que busca estimular o processamento desses recursos dentro do país e ampliar a participação da indústria nacional na cadeia produtiva.

O debate também ocorre em meio às negociações entre Brasil e Estados Unidos para reverter o pacote de tarifas imposto por Washington às exportações brasileiras. Alguns setores, como café, carne, frutas, aeronaves, fertilizantes e minerais críticos, podem ficar de fora das tarifas, embora a decisão final ainda dependa de audiências públicas em andamento nos Estados Unidos.

Mercadante insistiu que o Brasil deve se apresentar ao mundo com autonomia e realismo em relação aos seus recursos minerais e rejeitou qualquer condicionamento externo sobre as decisões soberanas do país nessa área.