Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI)
Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) Agência Brasil/CECOMSAER

A Força Aérea Brasileira (FAB) realiza, no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), a Operação Potiguar 2, uma missão que busca validar, em condições reais de voo, o sistema de recuperação da Plataforma Suborbital de Microgravidade Recuperável (PSM-R). A campanha, iniciada em 31 de agosto e com previsão de término em 19 de setembro de 2026, representa a segunda fase de um projeto que o país desenvolve desde 2024 para ampliar sua autonomia em pesquisas científicas em condições de gravidade reduzida.

A missão tem como principal objetivo o lançamento da PSM-R a bordo do veículo de sondagem VS-30 V16, desenvolvido integralmente pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), órgão subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da FAB. O foguete, com aproximadamente 9 metros de comprimento, 600 milímetros de diâmetro máximo e massa próxima de 1.600 quilogramas, transportará em sua parte superior a plataforma científica, cuja carga útil é de aproximadamente 401 quilogramas.

Um voo de poucos minutos a até 100 quilômetros de altitude

Segundo as simulações de referência divulgadas pela FAB, o veículo atingirá um apogeu de aproximadamente 100 quilômetros de altitude e um alcance horizontal próximo de 90 quilômetros. Durante parte dessa trajetória, a carga experimentará condições de microgravidade — entre seis e oito minutos, segundo estimativas de especialistas —, um estado no qual os efeitos do peso são drasticamente reduzidos e que permite observar fenômenos físicos, químicos e biológicos sem a interferência predominante da gravidade terrestre.

Diferentemente de uma missão orbital, o objetivo da Operação Potiguar 2 não é colocar um satélite em órbita, mas verificar o funcionamento do conjunto responsável pela separação, estabilização, descida e recuperação física da plataforma após o voo. Concluída a fase experimental, a PSM-R iniciará sua descida, acionará os paraquedas, cairá no mar e transmitirá sua posição por meio de GPS e rádio para ser recuperada por uma equipe da FAB. Isso permitirá aos pesquisadores analisar diretamente as amostras, em vez de depender exclusivamente dos dados enviados por telemetria.

Áreas de pesquisa beneficiadas

De acordo com o presidente da Agência Espacial Brasileira, a validação em voo da PSM permitirá, no futuro, instalar diferentes tipos de experimentos científicos e tecnológicos. As condições de microgravidade proporcionadas pelos foguetes das famílias VS-30 e VSB-30 possibilitam o desenvolvimento de pesquisas em áreas como estudo de novos materiais, processos de combustão, fluidos, biologia, desenvolvimento de medicamentos e agricultura espacial.

A possibilidade de recuperar fisicamente os equipamentos também permite comparar seu desempenho antes e depois da missão, acelerando os ciclos de desenvolvimento tecnológico tanto para a pesquisa acadêmica quanto para aplicações industriais nos setores aeroespacial, farmacêutico, biotecnológico, de materiais e de defesa.

Uma operação com grande mobilização humana e técnica

A Operação Potiguar 2 envolve cerca de 160 militares e servidores civis, responsáveis pelas tarefas de preparação, integração, lançamento e recuperação da carga. Durante a primeira semana da campanha, as equipes se concentraram na integração e no balanceamento da plataforma, submetendo cada sistema a verificações funcionais isoladas e, posteriormente, a testes conjuntos que simulam as condições previstas para o voo. Entre eles está uma técnica de verificação conhecida como "ioiô", utilizada para controlar a velocidade de rotação antes da separação da carga útil.

O CLBI, inaugurado em 1965, foi o primeiro centro de lançamentos espaciais da América do Sul e, segundo a FAB, já participou de mais de 400 lançamentos de foguetes e realizou o rastreamento de mais de 3.000 veículos. A operação atual também exige uma estreita articulação com os órgãos responsáveis pelo controle do espaço aéreo e marítimo, uma vez que envolve sistemas de rastreamento e telemetria ao longo de toda a trajetória do veículo sobre o Oceano Atlântico.

Um passo rumo à autonomia tecnológica

Especialistas consultados por veículos de comunicação brasileiros destacaram que, caso a recuperação funcione conforme o previsto, o país dará um passo importante rumo a uma maior independência tecnológica nessa área, uma vez que atualmente o Brasil também depende de estruturas estrangeiras para determinadas etapas de suas pesquisas em microgravidade.

O voo suborbital funciona, além disso, como uma etapa intermediária de qualificação: equipamentos destinados a satélites, plataformas orbitais ou missões de maior duração podem ser testados em condições reais antes que sejam realizados investimentos mais elevados.

Os resultados da Operação Potiguar 2 serão conhecidos após o encerramento da janela de lançamento, prevista para 19 de setembro, quando as equipes técnicas analisarão os dados coletados durante o voo e avaliarão o desempenho do sistema de recuperação da plataforma.