Brasil e EUA retomam diálogo tarifário, mas negociação não avança
Primeiro encontro formal desde julho termina sem solução para antigas questões tarifárias ligadas à condenação de Bolsonaro

Dez dias depois de uma conversa amistosa por telefone entre Lula e Trump, o primeiro encontro formal entre as equipes comerciais dos dois países desde julho serviu apenas para reabrir o canal de diálogo. A reunião não resolveu a disputa, que se arrasta há mais de um ano e está diretamente ligada à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Autoridades brasileiras e americanas voltaram a se reunir nesta segunda-feira, 31 de agosto, para discutir as tarifas impostas pelo governo Trump a produtos brasileiros, mas o encontro virtual não produziu avanços concretos. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, conversaram com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. As partes acertaram apenas a realização de novas reuniões ministeriais, presenciais ou virtuais, para avaliar o andamento das conversas técnicas previstas para as próximas semanas. “Foi uma reunião para retomar o diálogo. Obviamente, não avançamos em nenhum ponto da negociação”, disse Rosa a jornalistas. Ele descreveu o encontro como um passo protocolar de reaproximação, e não como uma instância de solução. O Ministério das Relações Exteriores reiterou que o governo brasileiro considera as tarifas “unilaterais” e “discriminatórias”, além de incompatíveis com as regras do comércio multilateral.
A atual tensão comercial começou em julho de 2025, quando Trump anunciou uma tarifa adicional de 50% sobre as importações brasileiras, além da alíquota geral de 10% que já vigorava desde abril daquele ano como parte de uma rodada tarifária aplicada a quase todos os países. O caso brasileiro se destacou porque a ordem executiva não citou motivos comerciais. O texto classificou como uma “ameaça” à segurança e à política externa dos Estados Unidos o processo movido pela Justiça brasileira contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado político de Trump acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022. Em carta enviada a Lula em 9 de julho daquele ano, Trump chamou o julgamento de “caça às bruxas” que “deveria terminar imediatamente” e advertiu que qualquer aumento de tarifas pelo Brasil em resposta seria simplesmente somado aos 50% já aplicados. A medida entrou em vigor em 1º de agosto de 2025.
Segundo estimativas da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a tarifa adicional atinge cerca de 3.000 produtos e aproximadamente US$ 11,2 bilhões em exportações — quase 30% dos US$ 37,7 bilhões que o Brasil vendeu aos Estados Unidos em 2025. Washington isentou da medida produtos sensíveis para a inflação americana, como café, carne bovina, suco de laranja e peças de avião, mas manteve a cobrança sobre setores muito dependentes do mercado americano, como madeira, maquinário e celulose solúvel.
Na época, o governo brasileiro reagiu com cautela. Em 14 de agosto de 2025, o Itamaraty autorizou a Câmara de Comércio Exterior (Camex) a avaliar o uso da lei de reciprocidade para eventuais contramedidas, mas Lula descartou uma retaliação imediata. “Isso é um processo que demora um pouco”, disse à Rádio Itatiaia, explicando que, se o rito legal fosse seguido à risca, o processo levaria cerca de um ano. “Por enquanto, o Brasil está aberto a negociações com os EUA. O que muda é que o Brasil não precisa baixar a cabeça para os EUA”, afirmou. Paralelamente, o Brasil apresentou, em 11 de agosto de 2025, uma reclamação formal ao Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio, alegando que a tarifa de 50% viola acordos internacionais. Washington aceitou responder por meio de um processo de consultas.
Um mês depois, em 11 de setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por liderar a trama golpista, confirmando sua inelegibilidade. A condenação abriu caminho para a candidatura presidencial de seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, pelo Partido Liberal, nas eleições de outubro deste ano, com o apoio explícito do pai, que está preso.
Neste ano, a disputa ganhou uma nova dimensão. Depois que a Justiça americana anulou a tarifa geral de 10% aplicada a quase todos os países em 2025, Washington impôs, em julho de 2026, uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros específicos, entre eles açúcar, roupas, papel e aço. A justificativa foram supostas práticas comerciais desleais. A medida veio acompanhada de uma tarifa adicional de 12,5%, relacionada a acusações de fiscalização frouxa contra o trabalho forçado, que também atingiu dezenas de outros países. Essa nova rodada é vista como substituta da tarifa geral derrubada pela Justiça, mas as fontes consultadas não deixam claro como ela se soma, na prática, à tarifa de 50% que incide sobre outra lista de produtos brasileiros desde 2025.
Diante desse novo capítulo, o Brasil abriu, em 14 de agosto de 2026, um novo processo de consultas com vistas a eventuais medidas de retaliação, classificando as tarifas americanas como “injustificadas e arbitrárias”. A decisão ainda não foi tomada, mas as opções em avaliação incluem a cobrança de taxas adicionais, a retirada de isenções, a redução de tarifas de importação ou até restrições a produtos e serviços americanos. Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, também estão sendo consideradas medidas mais amplas, como a suspensão de patentes farmacêuticas e agrícolas. O pano de fundo comercial chama atenção: apesar do discurso americano sobre déficits comerciais, os Estados Unidos têm superávit com o Brasil. Em 2026, até o momento, exportaram US$ 26,5 bilhões para o país e importaram US$ 17 bilhões, segundo o Departamento do Censo dos EUA.
O imbróglio comercial continua entrelaçado à disputa política e judicial em torno de Bolsonaro. Preso em regime domiciliar desde 27 de março deste ano por problemas recorrentes de saúde, como crises de soluço, vômitos e obstruções intestinais, o ex-presidente, hoje com 71 anos, recebeu na semana anterior à retomada das negociações uma autorização pontual do STF para deixar a prisão domiciliar e fazer uma consulta odontológica. A data e o horário foram mantidos em sigilo por razões de segurança. Seu filho Flávio, porém, continua proibido pelo ministro Alexandre de Moraes de visitá-lo até depois do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, por ter divulgado nas redes sociais uma carta do pai. Brasília sustenta que as tarifas representam interferência no processo eleitoral brasileiro. Washington, por sua vez, continua associando as medidas ao que classifica como perseguição política contra Bolsonaro. Segundo as fontes consultadas, essas duas interpretações seguem sem perspectiva de conciliação.
Por enquanto, o único compromisso concreto é a promessa de novas reuniões ministeriais, ainda sem data definida, para avaliar o resultado das conversas técnicas previstas para as próximas semanas. O desfecho das negociações e a decisão do Brasil sobre se — e como — utilizará sua lei de reciprocidade devem coincidir com a reta final da campanha eleitoral, na qual Lula, de 80 anos, tenta a reeleição contra Flávio Bolsonaro.
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