Inadimplência das famílias brasileiras sobe para 29,9% em agosto e afeta mais os lares de menor renda
Percentual de consumidores sem condições de pagar dívidas chega a 12,5%, enquanto endividamento permanece em nível recorde pelo sétimo mês consecutivo.

A inadimplência dos consumidores brasileiros voltou a crescer em agosto de 2026 e alcançou 29,9%, uma alta de 0,1 ponto percentual em relação a julho. Ao mesmo tempo, o percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar as contas em atraso subiu para 12,5%, o maior nível desde fevereiro deste ano.
Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta quinta-feira pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), principal entidade representativa do setor de comércio no Brasil.
Endividamento em recorde pelo sétimo mês consecutivo
O levantamento também mostrou que o percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer permaneceu estável em 82%, o mesmo nível registrado em julho. Com isso, o indicador completa o sétimo mês consecutivo em nível recorde.
A taxa representa um aumento significativo em relação aos 78,8% registrados em agosto de 2025, confirmando uma tendência de maior dependência do crédito por parte das famílias brasileiras ao longo do último ano.
A deterioração também apareceu na percepção das próprias famílias sobre sua situação financeira. O grupo que se considera "muito endividado" aumentou para 17,4%, enquanto a parcela que se considera "pouco endividada" recuou para 34,9%.
Além disso, o tempo médio de atraso nos pagamentos, que vinha caindo durante três meses consecutivos, voltou a subir e chegou a 65 dias. A parcela de devedores com atrasos entre 30 e 90 dias alcançou 29,1%, o maior nível desde agosto do ano passado.
Famílias de menor renda são as mais afetadas
O levantamento da CNC mostra que a deterioração dos indicadores está concentrada principalmente na parcela de menor renda da população.
As famílias com renda mensal de até três salários mínimos foram as únicas a registrar aumento das dívidas em atraso. O percentual de devedores com contas vencidas passou de 38,5% em julho para 38,8% em agosto, uma alta de 0,3 ponto percentual.
Nesse mesmo grupo, o endividamento total aumentou de 84,1% para 84,9%, enquanto a parcela de pessoas que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas subiu de 17,8% para 18,3%.
O contraste com as faixas de maior renda é significativo. Entre os lares com renda de cinco a dez salários mínimos, a inadimplência recuou 1,1 ponto percentual, para 20,3%.
Já entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, o endividamento avançou levemente, 0,3 ponto percentual, para 72,3%, enquanto a inadimplência caiu para 14,9%.
Os dados reforçam que a dificuldade de pagamento afeta de forma desproporcional as famílias com menor margem no orçamento e maior dependência do crédito para manter o consumo cotidiano.
Comprometimento da renda e perspectivas
O comprometimento médio da renda familiar com dívidas permaneceu estável em 29,5%. No entanto, a parcela de famílias que destinam mais da metade de seus rendimentos ao pagamento de obrigações financeiras subiu para 19,2%, o maior nível desde março deste ano.
Apesar do aumento da proporção de famílias com dívidas contratadas por prazos superiores a um ano, que chegou a 33,4%, o alongamento dos prazos não foi suficiente para conter o avanço da inadimplência.
Para os próximos meses, a CNC projeta uma nova alta das contas em atraso no próximo trimestre. Segundo a entidade, esse processo poderá ser acompanhado por uma redução gradual do endividamento geral, à medida que as famílias tentem reorganizar seus orçamentos diante da maior pressão dos compromissos financeiros.
"Estamos chegando ao último trimestre da mesma maneira que começamos [o ano]", afirmou a CNC ao apresentar o levantamento, em referência à persistência dos problemas de pagamento apesar das tentativas de renegociação e do alongamento dos prazos.
Contexto econômico
O dado de inadimplência divulgado nesta quinta-feira se soma a outros sinais de cautela na economia brasileira, em um momento de volatilidade nos mercados financeiros e de campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 2026.
O aumento do endividamento e da inadimplência entre as famílias de menor renda poderá se tornar um tema relevante no debate econômico durante a corrida eleitoral, especialmente em um cenário no qual o governo Lula busca capitalizar medidas destinadas a reduzir o custo de vida dos setores populares, como o recente fim da chamada "taxa das blusinhas".





















