São Paulo enfrenta surto de dengue enquanto Anvisa age contra água contaminada e aprova novo medicamento
Boletim estadual registra 42 mortes e 30 óbitos em investigação; agência também autorizou tratamento para doença rara e proibiu lote contaminado por coliformes.

O cenário de saúde pública no Brasil reuniu hoje três frentes distintas: o avanço contínuo da dengue no estado de São Paulo, a autorização da Anvisa para a importação de um medicamento experimental destinado a um paciente com uma doença raríssima e a proibição de um lote de água mineral contaminado por bactérias do grupo dos coliformes.
São Paulo supera 58 mil casos de dengue em 2026
As autoridades de saúde do estado de São Paulo confirmaram 58.683 casos de dengue desde o início de 2026, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde. O levantamento também contabilizou 42 mortes provocadas pela doença, número que pode aumentar, já que outros 30 óbitos permanecem sob investigação epidemiológica.
Do total de casos confirmados, 57.402 foram classificados como dengue clássica, 1.180 como dengue com sinais de alarme e 101 como dengue grave. Os casos com sinais de alarme incluem sintomas como vômitos, dor abdominal e sangramento das mucosas, enquanto a forma grave ocorre quando há choque, dificuldade respiratória, sangramentos intensos ou comprometimento de órgãos.
Taubaté é o município com maior número de mortes pela doença, com 11 óbitos registrados até o momento. Além dos casos confirmados, mais de 297 mil suspeitas da doença já foram descartadas e outras 7.256 permanecem em análise.
Questionada sobre as medidas de controle da arbovirose, a Secretaria de Estado da Saúde informou que mantém o monitoramento contínuo, com atenção especial entre outubro e maio, período de maior transmissão.
No mês passado, o governo estadual lançou o Plano Estadual de Preparação e Resposta em Saúde para o Fenômeno El Niño, que adapta as ações de saúde diante do provável aumento de casos associado às mudanças climáticas.
O pacote de medidas inclui a identificação de regiões prioritárias, o reforço das unidades de atendimento e o apoio aos municípios na organização da vigilância epidemiológica, além do monitoramento constante dos estoques de medicamentos e insumos.
Desde 2024, o governo de São Paulo transferiu mais de R$ 1,5 bilhão aos 645 municípios do estado por meio do programa IGM SUS Paulista, que também inclui critérios relacionados ao combate às arboviroses urbanas.
Anvisa autoriza medicamento experimental para caso raro
Paralelamente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação e o uso de um medicamento experimental para o tratamento do piloto e youtuber Lito Sousa, diagnosticado com a raríssima Doença de Creutzfeldt-Jakob, um transtorno neurodegenerativo que registra menos de 100 casos suspeitos por ano no Brasil.
A doença ocorre quando formas anormais de uma proteína chamada príon se acumulam no cérebro, comprometendo seu funcionamento. O quadro apresenta progressão rápida e, infelizmente, é fatal.
Segundo a esposa do paciente, Mila Seidl, a expectativa é de que o medicamento chegue ao país entre sete e nove dias após o anúncio. A família esclareceu que não se trata de uma autorização excepcional exclusiva para o caso.
"Isso é um regulamento, está previsto em lei", explicou Seidl, em referência ao mecanismo de uso compassivo de medicamentos existente em diversos países e que pode ser solicitado por qualquer família em situação semelhante junto à Anvisa, desde que apresente a documentação técnica necessária.
O caso contou com o aval tanto das autoridades brasileiras quanto da FDA, dos Estados Unidos, em relação à urgência da situação.
Anvisa proíbe lote de água mineral por contaminação por coliformes
A Anvisa também determinou, dias atrás, a interdição cautelar de um lote específico de água mineral sem gás da marca Vitoriosa, fabricada pela empresa GEPF Agro Indústria Ltda.
A medida foi adotada depois que um laudo do Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels, do Rio de Janeiro, apontou resultado insatisfatório em um ensaio microbiológico, com presença de coliformes totais — e, segundo alguns levantamentos, da bactéria Escherichia coli — em uma amostra de 250 mililitros do produto.
Segundo a agência, a presença de coliformes totais indica que houve comprometimento da qualidade microbiológica do produto. Embora esse grupo de bactérias nem sempre seja capaz de provocar doenças, sua detecção pode indicar falhas nas condições higiênico-sanitárias durante o processo de produção, envase ou armazenamento.
A medida foi publicada por meio da Resolução RE nº 3.441/2026 no Diário Oficial da União e afeta especificamente o lote 110426L5, sem se estender a toda a produção da marca.
A interdição tem caráter preventivo e permanecerá em vigor enquanto a investigação do caso estiver em andamento. A orientação oficial é não consumir nem comercializar o produto.
Um mesmo eixo: vigilância sanitária no centro da agenda
Os três episódios, embora de naturezas diferentes, têm um mesmo protagonista institucional: o sistema brasileiro de vigilância sanitária, representado pelas secretarias estaduais de saúde e pela Anvisa no âmbito federal.
Enquanto São Paulo enfrenta o desafio estrutural do controle de uma doença endêmica como a dengue, a agência reguladora atua simultaneamente na flexibilização excepcional de normas para casos médicos urgentes e no rigor da fiscalização de produtos de consumo em massa.
O cenário evidencia a dupla função — de acesso e de controle — desempenhada pelo órgão no cotidiano da saúde pública brasileira.





















