Mensagens de Vorcaro colocam três autoridades do STF sob pressão a um mês da eleição
Mensagens e documentos ligam banqueiro a Alexandre de Moraes e outros, levantando questões sobre a credibilidade do STF.

Um relatório da Polícia Federal com mensagens, encontros e metadados de documentos ligou o banqueiro do Banco Master a Alexandre de Moraes, ao procurador-geral Paulo Gonet e ao próprio ministro que mandou levantar o sigilo, André Mendonça. Juristas já apontam vícios processuais que ameaçam invalidar as provas, enquanto pedidos de impeachment contra Moraes se multiplicam no Senado.
Um relatório da Polícia Federal com 218 páginas, produzido a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, colocou nesta semana o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no centro de uma nova onda de suspeitas sobre o escândalo do Banco Master. O documento foi solicitado em 24 de agosto pelo ministro André Mendonça, relator do caso, entregue pela PF em 27 de agosto e teve o sigilo levantado em 1º de setembro, na mesma semana em que reportagens revelaram que o próprio Mendonça também se encontrara com Vorcaro, e que o senador Flávio Bolsonaro havia prestado informações imprecisas sobre pagamentos do banqueiro ao filme "Dark Horse", sobre seu pai. A um mês da eleição presidencial de outubro, os três episódios reacendem o debate sobre a credibilidade do STF e sobre até que ponto as novas provas resistirão a questionamentos processuais que já ameaçam anulá-las.
O que o relatório da PF mostra sobre Moraes
Do total de 218 páginas entregues a Mendonça, 181 tratam de um contato registrado na agenda do celular de Vorcaro como "Alexandre de Moraes Brasília"; outras 18 páginas mencionam o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Os próprios investigadores registraram, no documento, que se limitaram a organizar "dados brutos" e não realizaram apuração aprofundada dirigida a magistrados.
Entre os elementos que ganharam mais repercussão está um contrato de consultoria entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Há, porém, uma diferença de valores entre as fontes disponíveis: uma reportagem publicada nesta semana descreve o contrato como de R$ 131 milhões, parcelas de R$ 3,6 milhões por mês ao longo de três anos, assinado em 23 de janeiro de 2024; um registro anterior do caso, de dezembro de 2025, menciona um contrato de R$ 129 milhões, com parcelas de R$ 3,5 milhões mensais, cujos metadados indicariam edição por um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes" em 15 de janeiro daquele ano. As fontes disponíveis não explicam a origem dessa diferença de valores e datas. O escritório de Viviane confirmou que Moraes teve acesso ao documento, mas afirmou que ele foi consultado pelo setor de compliance apenas para verificar impedimentos legais, como marido da sócia-diretora, e destacou que o ministro nunca julgou nenhum processo envolvendo o Banco Master, algo que a reportagem reconhece como verdadeiro, mas que, segundo ela, não afasta a suspeita mais ampla de tentativa de compra de influência por parte de Vorcaro.
Mensagens atribuídas a Vorcaro e recuperadas pela PF mostram o banqueiro orientando uma funcionária a nunca atrasar o pagamento ao escritório da esposa de Moraes, chamado por ele de "o pagamento mais importante que temos". Outras mensagens, de outubro e novembro de 2025 — período que antecedeu a prisão do banqueiro —, mostram Vorcaro pedindo que fossem procurados Andrei Rodrigues e Gonet "para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem", e perguntando, já às vésperas da prisão, se deveria deixar o país e se havia "notícia" ou possibilidade de "bloquear" o que estava por vir. Um ponto central, porém, limita o alcance dessas mensagens como prova: a PF não recuperou nenhuma resposta de Moraes. As comunicações eram trocadas por meio de capturas de tela de anotações com visualização única, o que preservou apenas o lado de quem escrevia, não há, até onde se sabe publicamente, indício de que o ministro tenha efetivamente falado com Andrei, Gonet ou com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Desde que o contrato do escritório de sua esposa veio à tona pela primeira vez, entre fevereiro e março deste ano, Moraes já havia publicado ao menos cinco notas negando qualquer relação com Vorcaro, chegando a classificar as revelações da colunista Malu Gaspar, d'O Globo, como "ilação mentirosa" contra o STF. Diante do novo material, o ministro permanece em silêncio, e sua linha de defesa ainda não é conhecida.
Boa parte da discussão nesta semana concentrou-se não no conteúdo das mensagens, mas na forma como vieram a público, o que pode ser decisivo para o destino das provas. Mendonça retirou o relatório do sigilo em 28 de agosto, abriu vista à Procuradoria-Geral da República apenas em 31 de agosto, com prazo de cinco dias para manifestação, e já em 1º de setembro, antes de esse prazo se esgotar, decidiu levantar o sigilo por conta própria, argumentando que o rito do caso deveria ser decidido pelo Plenário do STF "independentemente" da posição da PGR. Gonet respondeu em menos de doze horas — poderia ter usado os cinco dias — pedindo dupla nulidade: um juiz não deveria investigar por conta própria, e um ministro não poderia mandar investigar um colega sem autorização do Plenário. Segundo colunas publicadas por jornalistas do UOL, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, teria classificado a movimentação como abuso de autoridade, e delegados convocados para a reunião de 24 de agosto teriam sido surpreendidos com um mandado de 72 horas que não fazia parte da pauta original.
Esse imbróglio processual abre a possibilidade de que o Plenário do STF anule todo o material, o que significaria que o país teria acesso a 218 páginas que, juridicamente, deixariam de existir por vício de forma. Ainda assim, o próprio timing das revelações já é questionado: Mendonça, indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, concentrou suas intervenções em uma investigação que reforça a narrativa da direita a um mês da eleição, embora soubesse do possível envolvimento de Moraes desde março, quando vazaram as primeiras mensagens. Editoriais da Folha de S.Paulo e do Estadão já pediram a saída do ministro do STF.
Mendonça também esteve com Vorcaro
Horas antes de o relator concluir a fase mais recente do caso, o jornalista Paulo Motoryn revelou, na manhã de 2 de setembro, que o próprio André Mendonça se reuniu com Vorcaro por duas horas, em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, entidade fundada pelo próprio ministro em São Paulo. O encontro foi articulado pelo então advogado do Master, Ciro Soares, e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, segundo áudios do próprio celular de Vorcaro. Mendonça confirmou o encontro em nota, afirmando tê-lo recebido a pedido do banqueiro para tratar de uma ação sobre pagamento de precatórios que tramitava com outro relator, não do caso Banco Master, e que decidiu contra os interesses de Vorcaro pouco depois. O ministro não comentou os áudios do advogado Ciro Soares, que também aparece intermediando, segundo o relatório da PF, contatos entre Vorcaro e o entorno do procurador-geral Gonet, incluindo uma viagem à filha de Gonet a Londres paga pelo banco, e uma degustação de uísque, em abril de 2024, também em Londres, que teria custado cerca de US$ 640 mil, segundo documentos remetidos à CPMI do INSS.
Esse terceiro episódio reforça uma pergunta incômoda para a própria condução do caso: o relator que mandou a PF investigar o celular de Vorcaro também constava na agenda do banqueiro. Antes de Mendonça, o ministro Dias Toffoli havia deixado a relatoria em fevereiro, depois que a imprensa revelou repasses de cerca de R$ 35 milhões de fundos ligados a Vorcaro a um resort no Paraná do qual Toffoli era sócio, episódio em que o presidente do STF, Edson Fachin, reuniu os ministros a portas fechadas, aceitou a saída voluntária de Toffoli da relatoria, mas recusou-se a declará-lo suspeito.
Na mesma terça-feira, 1º de setembro, a revista piauí revelou, com base em relatório do Coaf, que Vorcaro enviou mais US$ 1,6 milhão ao Havengate Development Fund, o fundo americano que administrava o dinheiro usado para financiar "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, em 16 de setembro de 2025. O valor foi enviado oito dias depois de uma cobrança do senador Flávio Bolsonaro por parcelas atrasadas, e menos de duas semanas depois de o Banco Central negar a venda do Master ao BRB. Com essa remessa, o total identificado passou de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões, o equivalente a cerca de R$ 65 milhões, próximo aos R$ 63,7 milhões que investigações anteriores já haviam apontado como efetivamente repassados de um total combinado entre Flávio e Vorcaro de R$ 134 milhões. Há indícios de uma parcela adicional em outubro, que teria sido liberada horas depois de uma nova cobrança de Flávio.
O detalhe mais sensível não é o valor, mas a data: em maio, à GloboNews, Flávio havia afirmado que o último pagamento de Vorcaro ocorrera em maio de 2025 e que o fundo já estava "fechado, isolado" desde as primeiras informações públicas sobre o banqueiro. O relatório do Coaf contradiz essa versão. Procurado por jornalistas no Senado nesta terça-feira, o candidato do PL à Presidência não corrigiu nem defendeu sua fala anterior, apenas afirmou não ter como saber dessas informações e sugeriu que a pergunta fosse dirigida à produtora do filme. No mesmo dia, no mesmo corredor do Senado, Flávio cobrou publicamente a renúncia de Alexandre de Moraes, uma simetria que a cobertura da semana não deixou de notar, já que o próprio senador segue sem explicar com clareza a origem e o destino do dinheiro que financiou o filme sobre seu pai, incluindo suspeitas, ainda sob apuração pela PF, de que parte dos recursos possa ter custeado a permanência de seu irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A Europa Filmes já avisou que "Dark Horse" só estreará depois das eleições de outubro.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após ser apontado como uma fraude bilionária estruturada como uma espécie de pirâmide financeira. O rombo é estimado, segundo diferentes reportagens, entre R$ 47,3 bilhões e R$ 52 bilhões, o que já provocou o maior desembolso da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Desde o fim de 2025, a investigação passou a atingir figuras de diferentes espectros políticos e dos três Poderes, o próprio Estadão mantém um mapeamento, batizado de "Vorcarosfera", da rede de contatos do banqueiro em Brasília, mais concentrada, mas não exclusiva, do lado da direita.
As revelações desta semana já produzem efeitos institucionais concretos: segundo balanços publicados nos dias seguintes, dezenas de novos pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes foram protocolados no Senado, e ex-ministros do STF assinaram uma carta conjunta cobrando apuração rigorosa das acusações contra a Corte. Fachin prometeu anunciar "medidas cabíveis e necessárias" sem precipitação, mas, segundo a análise da semana, não há um rito claro para o Plenário julgar um de seus próprios integrantes, e ao menos outros dois ministros, além de Toffoli, foram citados em situações relacionadas ao Master. O desfecho eleitoral desse imbróglio segue incerto, em uma disputa na qual a pauta anti-STF já era bandeira da extrema direita antes mesmo dessas revelações. É importante, de todo modo, não confundir indício, suspeita e prova: os elementos divulgados até aqui permanecem sob investigação e controvérsia institucional, e não constituem, por si só, comprovação de prática criminosa por parte de nenhuma das autoridades citadas.





















