Brasil aposta R$ 23 bilhões na "soberania da IA" até
Brasil aposta R$ 23 bilhões na "soberania da IA" até 2028 www.gov.br

Em um ano marcado pela corrida global pela inteligência artificial, o governo brasileiro consolidou sua aposta mais ambiciosa na área: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, batizado de "IA para o Bem de Todos", prevê investimentos de R$ 23,03 bilhões ao longo de quatro anos para posicionar o país como referência mundial no desenvolvimento e uso da tecnologia, com especial ênfase no setor público.

O plano, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio técnico do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Seu principal objetivo é reduzir a dependência tecnológica do Brasil em relação a soluções desenvolvidas nos Estados Unidos e na China e impulsionar o conceito que se tornou uma das palavras-chave do ano: a "soberania da IA", entendida como a capacidade de um país — ou de uma empresa — de controlar seus próprios sistemas, dados e infraestrutura.

Os quatro eixos do plano

Os recursos serão distribuídos em diferentes frentes estratégicas:

- Pesquisa e desenvolvimento: financiamento de projetos em universidades e centros de pesquisa para desenvolver novos algoritmos e modelos de IA.
- Formação de talentos: programas de capacitação para atender à demanda por profissionais qualificados. Até 2026, 115 mil servidores públicos já foram capacitados, o equivalente a 20% da meta total.
- Infraestrutura tecnológica: investimentos em supercomputadores e centros de dados. Entre as metas está a aquisição de um dos cinco supercomputadores mais potentes do mundo, ampliando a capacidade atual do Santos Dumont, instalado em Petrópolis (RJ).
- Apoio a startups e à indústria: o eixo alinhado ao programa Nova Indústria Brasil (NIB) concentra R$ 13,79 bilhões para o desenvolvimento de centros de dados nacionais, apoio a startups de IA e concessão de bolsas para retenção de talentos.

O plano também prevê a criação de uma Infraestrutura Nacional de Dados, com a meta de catalogar 2 mil conjuntos de dados do governo federal até 2027, além de uma nuvem governamental soberana, desenvolvida em parceria com o Serpro e a Dataprev, para substituir fornecedores estrangeiros no armazenamento de informações estratégicas.

Governança e contexto internacional

Um grupo de trabalho formado por representantes de ministérios como Fazenda e Comunicações, além do BNDES, coordena a implementação do PBIA, com a participação de pesquisadores e da sociedade civil na formulação das políticas.

No entanto, especialistas alertam que, diante do cenário global, o volume de recursos destinados pelo Brasil ainda é modesto. A União Europeia e a França já anunciaram iniciativas na ordem de centenas de bilhões de euros para competir com Estados Unidos e China na corrida pela inteligência artificial.

Ainda assim, para o governo brasileiro, o PBIA representa um ponto de inflexão: transformar a inteligência artificial de uma ferramenta experimental em um pilar estratégico para a economia, a administração pública e a cultura nacional, com uma abordagem centrada nas pessoas, na acessibilidade e na cooperação internacional.