Brasil deve dobrar investimentos para zerar déficit em infraestrutura
Levantamento propõe ampliar o financiamento privado e manter os aportes no setor por pelo menos duas décadas para eliminar o déficit acumulado.

O Brasil precisa mais que dobrar os investimentos em infraestrutura para reduzir o déficit histórico do setor e se aproximar dos padrões internacionais de desenvolvimento. É o que aponta o estudo inédito "Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil", divulgado nesta terça-feira (15) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que propõe um novo regime de financiamento voltado a ampliar a participação do capital privado e sustentar projetos de longo prazo.
A meta: quase dobrar o patamar atual
Em 2024, o país investiu R$ 266,8 bilhões em infraestrutura, valor equivalente a apenas 2,27% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo a CNI, para eliminar o déficit acumulado ao longo de décadas e alcançar padrões internacionais, o Brasil precisaria elevar esse patamar para 4,65% do PIB — cerca de R$ 550 bilhões por ano — e manter esse ritmo de forma contínua por pelo menos duas décadas.
Mudança na composição do financiamento
O levantamento mostra uma transformação relevante na origem dos recursos aplicados no setor entre 2010 e 2024. Em valores atualizados, as fontes privadas passaram de uma média de R$ 88,6 bilhões no período de 2010 a 2014 para R$ 184,5 bilhões em 2024. Em contrapartida, o investimento público encolheu de R$ 208,5 bilhões para R$ 107 bilhões no mesmo intervalo. Como resultado, a participação privada na infraestrutura brasileira saltou de 29,3% para 61,5% em uma década.
Do total aplicado em 2024, a maior fatia partiu da iniciativa privada, que respondeu por R$ 188,1 bilhões. Os aportes públicos somaram R$ 78,6 bilhões, impulsionados majoritariamente pelos governos estaduais e municipais, enquanto instituições multilaterais de crédito contribuíram com R$ 8,4 bilhões. Para a CNI, nenhuma fonte de recursos isolada tem capacidade de suprir, sozinha, as necessidades do país.
O que a CNI propõe
Diante desse cenário, a entidade defende um modelo que combine recursos públicos e privados, com ampliação do mercado de capitais e criação de condições regulatórias favoráveis a contratos de longo prazo. Segundo a CNI, os recursos públicos devem passar a atuar de forma estratégica, funcionando como indutores para mobilizar capital privado, e não apenas como fonte direta de financiamento. Entre as medidas sugeridas para consolidar esse ambiente de negócios estão: estabilidade fiscal para reduzir os custos de captação; fomento ao mercado de capitais com foco em investidores institucionais; melhor distribuição de riscos no crédito privado; ampliação do portfólio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs); e maior autonomia técnica para as agências reguladoras.
O estudo também destaca o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como instrumento capaz de ajudar a viabilizar essa transição para um modelo de financiamento mais equilibrado entre os setores público e privado.
Estabilidade institucional como condição-chave
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu que a estabilidade econômica e institucional é indispensável para atrair capital ao setor. "O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, instituições sólidas e segurança jurídica para criar condições de mobilizar mais recursos privados para o setor de infraestrutura, sem abrir mão do papel estratégico dos investimentos públicos", afirmou. Alban também defendeu a construção de uma estratégia de Estado que garanta continuidade aos projetos, argumentando que a modernização da infraestrutura brasileira exige um esforço contínuo, sistemático e de longo prazo, conduzido por diferentes governos ao longo do tempo.
Referências internacionais
Apesar das diferenças entre os modelos adotados por diversos países, a CNI identificou fatores em comum entre as nações que conseguiram ampliar sua capacidade de financiamento em infraestrutura: estabilidade econômica, instituições confiáveis, previsibilidade regulatória, um mercado de capitais desenvolvido e instrumentos financeiros voltados para o longo prazo — elementos que a entidade considera centrais para o Brasil avançar rumo à meta de dobrar seus investimentos no setor.





















