Brasil pode esgotar cota de carne bovina para a China
Brasil pode esgotar cota de carne bovina para a China até abril de 2027 IBTimes Brasil

Aumento antecipado dos embarques pode consumir rapidamente a cota de 1,128 milhão de toneladas prevista para o próximo ano. A ABIEC pede medidas para distribuir melhor as exportações, enquanto o setor também enfrenta incertezas sobre a demanda chinesa.

As exportações brasileiras de carne bovina para a China podem atingir a cota tarifária de 1,128 milhão de toneladas prevista para 2027 já em março ou abril, segundo Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). O alerta ocorre porque parte dos embarques destinados ao próximo ano poderá começar ainda em novembro de 2026, antecipando o consumo do limite e aumentando a necessidade de administrar o ritmo das vendas.

A China é o principal mercado externo da carne bovina brasileira. No primeiro semestre de 2026, o país asiático comprou 794,7 mil toneladas, equivalentes a cerca de 47% de todo o volume exportado pelo Brasil no período. As vendas para a China somaram US$ 4,87 bilhões entre janeiro e junho, segundo dados da Secex compilados pela ABIEC.

A nova cota representa um aumento de apenas cerca de 20 mil toneladas em relação à de 2026, segundo a Reuters. Para Perosa, esse crescimento limitado, combinado com o ritmo antecipado dos embarques, pode fazer com que o volume permitido seja preenchido rapidamente.

O que muda quando a cota é atingida

A cota funciona como um limite para a aplicação da tarifa mais baixa sobre a carne brasileira importada pela China. Dentro do volume estabelecido, aplica-se uma tarifa de 12%. Para as quantidades que ultrapassarem a cota, entra em vigor uma sobretaxa de 55%, elevando a tarifa total para 67%, conforme explicou o Ministério da Agricultura brasileiro ao detalhar a medida chinesa.

Isso não significa que o Brasil fique proibido de vender carne à China quando a cota for preenchida. O problema é econômico: os embarques que excederem o limite ficam sujeitos a uma carga tarifária muito maior, o que pode reduzir a competitividade do produto brasileiro no mercado chinês.

Por esse motivo, Perosa defende medidas do governo brasileiro para evitar que a cota seja consumida rapidamente nos primeiros meses do período.

A proposta é administrar melhor o fluxo das exportações, e não necessariamente reduzir as vendas para a China. A preocupação é evitar uma concentração excessiva dos embarques no início do período e preservar espaço para as empresas exportarem ao longo de 2027.

O Brasil já antecipou embarques em 2026

O movimento não seria totalmente novo. No primeiro semestre deste ano, frigoríficos brasileiros aceleraram os embarques para a China diante da proximidade do limite tarifário. Em julho, a ABIEC informou que as exportações para o país haviam caído para 85,8 mil toneladas, 47% menos que no mesmo mês de 2025.

A entidade explicou que as empresas haviam antecipado parte das vendas nos primeiros meses do ano e passaram a reduzir o ritmo quando a utilização da cota avançou. O objetivo era evitar que cargas chegassem à China acima do limite e ficassem sujeitas à tarifa adicional.

O episódio mostra por que a previsão para 2027 preocupa o setor: se os exportadores repetirem uma estratégia de antecipação, uma parcela significativa da cota poderá ser utilizada antes mesmo de o ano começar.

Demanda chinesa também é uma incógnita

Há ainda uma segunda questão: não está claro qual será o ritmo das compras chinesas quando o novo período de exportação começar. Perosa afirmou à Reuters que a China possui estoques elevados de suas principais fontes de proteína, o que cria incerteza sobre a demanda quando as vendas forem retomadas sob as novas condições. Isso significa que o possível esgotamento da cota até março ou abril é uma estimativa baseada no ritmo esperado dos embarques, e não uma garantia de que todo o volume será efetivamente vendido nesse período.

O desempenho de outros mercados também pode influenciar a estratégia brasileira. Em julho, enquanto os embarques para a China diminuíram, outros destinos ampliaram suas compras de carne bovina brasileira. A ABIEC destacou que quatro dos cinco principais mercados do produto registraram crescimento em volume na comparação com julho de 2025.

China continua central para a pecuária brasileira

A possibilidade de uma utilização rápida da cota ocorre em um momento de forte expansão das exportações brasileiras de carne bovina. Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil exportou 1,97 milhão de toneladas, alta de 9,9% em relação ao mesmo período de 2025. A China permaneceu como principal destino, apesar da redução dos embarques registrada em julho.

A importância do mercado chinês também ajuda a explicar a preocupação do setor com a administração da cota. Em junho, a China reconheceu todo o território brasileiro como livre de febre aftosa, decisão que a ABIEC classificou como um marco para as relações comerciais entre os dois países.

Para o Brasil, portanto, o desafio para 2027 não será apenas produzir e vender mais carne. Será também distribuir os embarques ao longo do ano e encontrar alternativas caso a demanda chinesa não acompanhe o ritmo esperado.

A previsão de que a cota possa ser preenchida até março ou abril ainda dependerá do comportamento das compras chinesas, do calendário dos embarques e das decisões adotadas pelo governo e pelos exportadores. O dado mais concreto neste momento é que o limite de 2027 será apenas marginalmente maior que o de 2026, enquanto o mercado chinês continua sendo, de longe, um dos principais destinos da carne bovina brasileira.