Onda democrata no Congresso dos EUA impõe obstáculos a Trump
Encontro entre Lula e Trump na Casa Branca. Divulgação/Ricardo Stuckert

A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como *midterms*, representa um importante revés político para o presidente Donald Trump e poderá provocar mudanças no cenário econômico internacional. Na votação realizada na terça-feira (3), os democratas conquistaram o controle das duas Casas do Congresso norte-americano, a Câmara dos Representantes e o Senado, retirando dos republicanos a maioria parlamentar.

O resultado amplia os desafios enfrentados por Trump nos dois últimos anos de seu mandato, uma vez que o presidente terá mais dificuldades para aprovar projetos econômicos, propostas orçamentárias e mudanças legislativas. A nova composição também deverá aumentar a fiscalização das ações do governo e abrir espaço para investigações conduzidas por parlamentares democratas.

A derrota republicana foi atribuída, entre outros fatores, à insatisfação dos eleitores com o custo de vida, a inflação, a política comercial e a condução da guerra envolvendo o Irã. O resultado representa uma demonstração de resistência ao governo e evidencia o impacto das questões econômicas sobre o comportamento do eleitorado norte-americano.

Restrições à agenda econômica de Trump

Com a maioria democrata nas duas Casas, o governo poderá enfrentar dificuldades para avançar com novas reduções de impostos, projetos de gastos públicos e iniciativas relacionadas à política econômica. Os parlamentares também terão maior capacidade de convocar autoridades, realizar audiências e investigar decisões da administração presidencial.

Apesar disso, a mudança na composição do Congresso não significa que Trump perderá todos os instrumentos de atuação. O presidente continuará exercendo poderes executivos, incluindo determinadas decisões relacionadas à política comercial e às relações internacionais. Além disso, poderá utilizar o poder de veto para bloquear projetos aprovados pelos democratas.

A nova configuração política deverá produzir um ambiente de maior disputa entre o Executivo e o Legislativo, aumentando as incertezas sobre a condução das políticas públicas norte-americanas.

Reflexos sobre o dólar e os mercados financeiros

A vitória democrata também provocou reações nos mercados internacionais. O dólar apresentou desvalorização diante de outras moedas, enquanto investidores passaram a avaliar os possíveis efeitos de um Congresso dividido sobre os gastos públicos, a política fiscal e os investimentos em tecnologia.

A possibilidade de maior controle parlamentar sobre as decisões do governo Trump pode reduzir as expectativas de novos estímulos fiscais e limitar determinadas propostas econômicas. Entretanto, a perspectiva de maior fiscalização sobre empresas de tecnologia e inteligência artificial também trouxe preocupações para investidores desses setores.

No Brasil, os efeitos podem aparecer principalmente por meio do câmbio e do fluxo internacional de investimentos. Uma eventual desvalorização do dólar no exterior tende a favorecer moedas de países emergentes, incluindo o real. Além disso, uma redução das pressões sobre os juros futuros norte-americanos poderia estimular a entrada de recursos em mercados como o brasileiro.

Impactos sobre a economia brasileira

Segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, a vitória democrata pode favorecer o mercado brasileiro caso contribua para reduzir as incertezas internacionais e as expectativas de gastos do governo norte-americano. Entretanto, os efeitos não são automáticos e dependerão das decisões econômicas adotadas em Washington.

A política monetária do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, continuará sendo um dos principais fatores para determinar o comportamento do dólar e dos investimentos internacionais. Juros elevados nos Estados Unidos tendem a atrair recursos para ativos norte-americanos, reduzindo a disponibilidade de capital para economias emergentes.

No Brasil, a política fiscal também terá papel determinante. As contas públicas, a inflação e as expectativas de crescimento econômico influenciam diretamente a percepção dos investidores e a trajetória dos juros futuros.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para esta quarta-feira (4), também concentra a atenção do mercado. A definição sobre a taxa Selic poderá influenciar as expectativas para o real e para os investimentos no país.

Com a mudança na composição do Congresso norte-americano, os próximos meses deverão ser marcados por negociações políticas e disputas institucionais. Para o Brasil, o desafio será acompanhar os desdobramentos externos sem perder de vista os fatores internos que continuam determinando o desempenho da economia.