Aliados de Lula criticam pressão do mercado
Aliados de Lula criticam pressão do mercado às vésperas de decisão do Copom sobre a Selic IBTimes Brasil

Integrantes do governo e do PT contestaram cobranças por ajuste fiscal e classificaram parte das reações financeiras como especulativas. O debate ocorre antes da reunião do Banco Central, em um cenário de incerteza sobre inflação, câmbio e trajetória dos juros.

Integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e dirigentes do PT intensificaram as críticas ao mercado financeiro nos dias que antecedem a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 4 de novembro. O embate envolve a cobrança de medidas de ajuste fiscal, as expectativas para a política econômica do próximo governo e a possibilidade de interrupção do ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 13,75% ao ano, segundo a reportagem da Folha de S.Paulo.

A reação de aliados do presidente ocorreu depois de uma forte desvalorização dos ativos financeiros na semana posterior à reeleição de Lula. Parte dos integrantes do governo e do partido atribuiu a movimentação a especulação e a pressões do mercado por uma política de contenção de gastos. As críticas foram apresentadas publicamente por autoridades e lideranças políticas, mas representam avaliações desses atores, não uma conclusão comprovada sobre as motivações de todos os investidores.

O senador eleito pela Bahia e ex-ministro da Casa Civil Rui Costa foi um dos primeiros a questionar a atuação do setor financeiro. Em entrevista ao portal Metrópoles, afirmou que os agentes que participam da formação de preços e expectativas também deveriam considerar os interesses do país. Ele mencionou a possibilidade de comportamentos especulativos, mas não apresentou uma proposta concreta de intervenção no funcionamento do mercado.

No fim de semana, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também criticou a pressão por cortes de despesas. Em entrevista à Folha, classificou como chantagem a tentativa de contrapor exigências do mercado à vontade expressa nas urnas. Boulos defendeu que eventuais economias do governo sejam buscadas em áreas como desonerações fiscais, supersalários e emendas parlamentares impositivas, em vez de atingir programas sociais.

O presidente Lula participou do debate ao divulgar um vídeo nas redes sociais no qual negou a intenção de cortar programas sociais. A publicação foi uma resposta a informações e especulações sobre possíveis reduções de despesas no próximo mandato. A ex-ministra Gleisi Hoffmann também criticou analistas financeiros, afirmando que parte das avaliações divulgadas confundiria os interesses dos investidores que recebem rendimentos com a racionalidade econômica.

Diante da repercussão, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que o governo estivesse considerando tabelar juros. O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que somente o titular da Fazenda fala oficialmente em nome do governo sobre política econômica. A declaração buscou delimitar as posições institucionais do Executivo em meio a manifestações de diferentes integrantes da base política.

A discussão ocorre em um momento delicado para a política monetária. O Copom precisa avaliar se há condições para continuar reduzindo a Selic ou se deve interromper temporariamente o ciclo de cortes iniciado em março. Segundo a Folha, a maioria dos economistas ouvidos pelo mercado esperava a manutenção da taxa em 13,75% ao ano na reunião de novembro.

Entre os fatores que influenciam essa avaliação estão a desvalorização do câmbio, a incerteza sobre a condução fiscal e a pressão dos juros futuros. Esses elementos podem dificultar o controle da inflação, já que uma moeda mais fraca pode encarecer produtos importados e insumos, enquanto expectativas de gastos públicos maiores podem afetar as projeções de preços e de financiamento da dívida.

O governo, por sua vez, argumenta que juros elevados prejudicam o crescimento, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem contribuir para dificuldades financeiras. A divergência expõe uma tensão recorrente na política econômica: enquanto autoridades monetárias e agentes financeiros enfatizam os riscos inflacionários e fiscais, integrantes do Executivo destacam os custos econômicos e sociais de manter o crédito caro.

A autonomia do Banco Central também voltou ao debate. Lula já havia criticado a estrutura aprovada em 2021, que estabelece mandatos não coincidentes para os dirigentes da instituição e busca reduzir interferências políticas na definição da política monetária. A decisão sobre a Selic, no entanto, cabe ao Copom, e as críticas de integrantes do governo não alteram formalmente a competência do colegiado.

A reunião de 4 de novembro será, portanto, acompanhada em meio a uma disputa pública sobre a condução econômica. As declarações políticas ajudam a revelar as prioridades do governo, mas a decisão do Banco Central dependerá da avaliação técnica do cenário de inflação, atividade econômica e expectativas.