Pesquisadora Da USP Analisa Violência Contra Candidatas Nas Redes Sociais
Levantamento sobre violência política de gênero também aponta ataques contra mulheres trans e destaca o papel das plataformas na amplificação das agressões.

As candidatas mulheres estão mais expostas a ofensas e ataques nas redes sociais durante as eleições brasileiras, segundo um levantamento do Projeto MonitorA, observatório que acompanha a violência política de gênero nas plataformas digitais. Os dados indicam que as candidatas ao Senado foram alvo de seis em cada dez ofensas coletadas entre 16 e 24 de agosto.
Sub-representação e violência
Embora representem mais da metade do eleitorado, as mulheres seguem minoria entre quem disputa cargos eletivos. Nas eleições gerais de 2026, correspondem a 34,85% das candidaturas consideradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 7.165 registros, contra 65,15% dos homens, com 13.395. Para Daniela Osvald Ramos, professora de Educomunicação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e coordenadora do Obcom, a diferença na violência direcionada a mulheres e homens está ligada à vulnerabilidade do gênero feminino na esfera pública, agravada pelo machismo e pela misoginia estruturais.
Ataques vão além da atuação política
Segundo a pesquisadora, a violência contra candidatas não se limita à crítica a posições ou ao trabalho político. Os ataques podem mirar o corpo, a aparência, a sexualidade, a identidade de gênero e os familiares, como filhos, pai e mãe, em um efeito cascata. Mulheres trans também são alvo. Daniela cita como exemplo a jornalista Patrícia Campos Mello, que passou a sofrer ataques ligados à sua condição de mulher após uma reportagem sobre o uso do WhatsApp na campanha de 2018.
O papel das plataformas
Para Daniela, algoritmos e mecanismos de interação tendem a favorecer conteúdos que geram engajamento, o que pode ampliar a circulação de mensagens ofensivas. Ela afirma que os ataques também podem ser automatizados por robôs ou integrar campanhas coordenadas contra determinadas candidatas. A pesquisadora recorre ao conceito de viés sociotécnico, usado por Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, segundo o qual a arquitetura dos sistemas digitais influencia a circulação dos conteúdos. Na avaliação de Daniela, a falta de moderação e de regulamentação específicas para esse tipo de ataque ajuda a manter o ciclo.
Raça, identidade e efeitos
A pesquisadora destaca que a violência de gênero pode se combinar com outros marcadores, como raça e identidade de gênero, o que aumenta a exposição de determinadas mulheres. Os efeitos, segundo ela, não ficam restritos ao ambiente digital: a exposição prolongada pode causar ansiedade e outros impactos físicos e psicológicos, além de levar mulheres a deixar o espaço público.
Legislação
A Lei nº 14.192, de 2021, alterou o Código Eleitoral e tornou crime assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou mulher com o objetivo de impedir ou dificultar sua campanha ou atuação política, inclusive no ambiente digital. Durante o período eleitoral, a Justiça Eleitoral também adota medidas contra conteúdos ligados à violência política contra mulheres.
Para Daniela, é preciso garantir condições para que as mulheres participem da política sem que a visibilidade se transforme em exposição permanente à violência.

