Plenário do Senado Federal discute a PEC do fim da
Plenário do Senado Federal discute a PEC do fim da escala 6x1 Jonas Pereira/Agência Senado

A proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 no Brasil avançou no Congresso Nacional e poderá alterar a rotina de milhões de trabalhadores. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC), aprovada pelo Senado Federal em 14 de outubro de 2026, estabelece dois dias de descanso semanal remunerado e reduz gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição salarial. A mudança, porém, não será aplicada da mesma maneira a todas as categorias profissionais.

Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 26,8 milhões de trabalhadores poderão ser beneficiados pela redução da jornada. O grupo inclui aproximadamente 22 milhões de empregados formais e 4,8 milhões de trabalhadores informais que atualmente cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais.

A proposta ainda depende de promulgação pelo Congresso Nacional para iniciar sua implementação. O cronograma prevê uma transição de 14 meses, permitindo que empresas e setores econômicos adaptem suas operações às novas regras.

Como será a transição

A primeira etapa começará 60 dias após a promulgação da emenda constitucional. Nesse momento, a escala passará a garantir cinco dias de trabalho e dois de descanso por semana, enquanto o limite semanal será reduzido de 44 para 42 horas.

Após mais 12 meses, a jornada máxima chegará a 40 horas semanais, mantendo o modelo de cinco dias trabalhados e dois de descanso. A remuneração não poderá ser reduzida em razão da diminuição da carga horária.

Os dias de folga não precisarão ser consecutivos. A proposta determina que um deles seja concedido preferencialmente aos domingos, permitindo a organização de escalas conforme as necessidades de cada atividade.

Comércio, alimentação e hotelaria entre os setores impactados

Os efeitos mais imediatos deverão ser sentidos pelos trabalhadores que atualmente cumprem seis dias consecutivos de serviço para apenas um de descanso. Entre os segmentos potencialmente afetados estão supermercados, lojas de shopping centers, farmácias, bares, restaurantes, hotéis, serviços de limpeza e atividades industriais e logísticas.

Esses estabelecimentos poderão continuar funcionando aos sábados, domingos e feriados. A mudança exigirá, entretanto, reorganização dos turnos e, em algumas empresas, contratação de funcionários para manter o atendimento.

Na área da saúde, hospitais e serviços de emergência também precisarão adaptar suas escalas para garantir atendimento contínuo. O mesmo vale para profissionais de transporte, segurança privada, portaria e vigilância, cujas atividades frequentemente exigem cobertura durante 24 horas.

A proposta permite que determinados setores adotem regimes diferenciados, regulamentados por legislação específica e instrumentos de negociação coletiva. Isso significa que o fim da escala 6x1 não obrigará todos os profissionais a trabalhar exclusivamente de segunda a sexta-feira.

Quem poderá ficar fora da regra geral

A mudança não alcança automaticamente todos os trabalhadores. Servidores públicos estatutários seguem suas próprias normas de jornada, enquanto microempreendedores individuais (MEIs) e autônomos não estão submetidos às regras gerais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

O texto também prevê medidas transitórias para microempresas e empresas de pequeno porte, que poderão ser estabelecidas por lei complementar.

Além disso, profissionais com diploma de nível superior e remuneração igual ou superior a duas vezes e meia o teto do Regime Geral de Previdência Social poderão estar sujeitos a condições diferenciadas de negociação da jornada. O direito ao descanso semanal, contudo, deverá ser preservado conforme as regras aplicáveis.

O enquadramento depende do vínculo profissional e da legislação específica, e não apenas da profissão exercida. Por isso, trabalhadores que desempenham a mesma função poderão estar sujeitos a condições diferentes.

Empresas terão de reorganizar operações

A redução da jornada também gera preocupações sobre os custos de contratação e a continuidade dos serviços. Representantes de setores como comércio, alimentação e shopping centers afirmam que negócios com equipes pequenas poderão enfrentar dificuldades para cobrir os turnos.

Por outro lado, defensores da medida argumentam que o descanso adicional poderá contribuir para melhorar a qualidade de vida, reduzir o desgaste profissional e favorecer a conciliação entre trabalho e vida pessoal.

A implementação dependerá da regulamentação e da capacidade de adaptação dos empregadores. O desafio será assegurar o cumprimento dos novos limites sem comprometer a prestação de serviços essenciais e os direitos dos trabalhadores.