Indígenas brasileiros
Os registros de eleitores que se autodeclaram indígenas passaram de 155 mil para 287 mil EVARISTO SA/AFP via Getty Images

O número de eleitores indígenas no cadastro da Justiça Eleitoral subiu de 155.661, em 2024, para 287.157, em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O aumento foi de 131.496 registros, ou 84%. Os eleitores quilombolas passaram de 95.409 para 188.371, alta de 97%.

O que mostram os números

O TSE observa que os dados sobre raça, etnia e comunidades tradicionais são autodeclaratórios. Eles começaram a ser coletados em novembro de 2022, e o crescimento acompanha a ampliação gradual dessas informações no cadastro. Ou seja, parte do aumento reflete mais pessoas informando sua identidade, e não necessariamente o mesmo número de novos eleitores. No total, o eleitorado do país cresceu 1,46% em relação a 2022, para 158,7 milhões de pessoas aptas a votar.

Por região, o Norte concentra cerca de 47% do eleitorado indígena, com 136.978 registros (74.506 em 2024). O Nordeste passou de 35.440 para 71.346, e o Centro-Oeste, de 25.404 para 40.804. O Sudeste teve a maior alta proporcional, de 107%, e o Sul foi de 10.521 para 17.178. O Amazonas teve o maior aumento absoluto entre os estados. Os maiores contingentes por etnia são os Tikúna, com 19.062 eleitores, os Makuxí, com 14.935, e os Kokama, com 12.551.

Um cadastro ainda distante da população

O Censo de 2022 contabiliza cerca de 1,7 milhão de indígenas, de quase 400 etnias. No cadastro eleitoral, porém, apenas cerca de 290 mil pessoas se declaram indígenas. Reportagem da TV Brasil, exibida em 28 de setembro, destaca que o número, embora maior, ainda não retrata o tamanho dessa população. Para facilitar o voto de indígenas aldeados ou com dificuldade de acesso às urnas, o TSE oferece este ano transporte gratuito.

Candidaturas e obstáculos

O TSE registrou 196 candidaturas indígenas nas eleições gerais, o maior número desde 2014, quando passou a processar dados de cor ou raça. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a participação indígena na disputa por mandatos cresceu mais de 120% em 12 anos. Em 2022, foram eleitos cinco deputados federais indígenas, lembra a professora da UFF Cora Hagino.

Os obstáculos persistem. A professora aponta que ameaças e assassinatos de lideranças afastam pessoas da vida política. O coordenador da Apib, Dinamam Tuxá, defende que todas as terras tenham acesso às urnas e que se considerem as especificidades dos povos que não falam português.

Um direito recente

Até a Constituição de 1988, os indígenas viviam sob tutela do Estado. Pelo Estatuto do Índio, de 1973, só os considerados "integrados" podiam participar das eleições, e o voto era facultativo nas aldeias. A Constituição reconheceu sua autonomia e os direitos de votar e ser votado.

O primeiro turno é neste domingo, 4 de outubro. O resultado mostrará se o aumento no cadastro e nas candidaturas se traduz em maior representação.