Carta de Sanders e 30 deputados dos EUA a Rubio cobra resposta sobre eleição brasileira até 1º de outubro
Carta enviada a Marco Rubio reúne sete perguntas sobre sanções, tarifas, decisões diplomáticas e o compromisso de Washington com o processo eleitoral de 2026.

Parlamentares democratas questionam medidas do governo Trump em relação ao Brasil e pedem compromisso de Washington com o processo eleitoral e o resultado das urnas
O senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas dos Estados Unidos enviaram, em 24 de setembro, uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, na qual questionam a atuação do governo Donald Trump em relação ao Brasil e pedem esclarecimentos sobre possíveis interferências na eleição presidencial de 2026. O documento apresenta sete perguntas e estabelece 1º de outubro como prazo para uma resposta do Departamento de Estado, três dias antes do primeiro turno brasileiro. Até 26 de setembro, a pasta ainda não havia divulgado uma resposta pública à carta.
A iniciativa partiu da deputada democrata Delia Ramirez e tem entre os signatários nomes como Alexandria Ocasio-Cortez, Pramila Jayapal, Chuy García, Jonathan Jackson, Greg Casar e Maxwell Frost, além de Sanders. A composição do grupo é relevante porque envolve parlamentares de diferentes áreas de atuação da Câmara, incluindo integrantes de comissões que acompanham a política externa e a atuação do Executivo americano.
Os congressistas afirmam, na carta, que determinadas ações do governo Trump configurariam uma possível tentativa de pressionar instituições brasileiras e influenciar o ambiente eleitoral. Essa é a avaliação dos signatários, e não uma conclusão independente estabelecida pela carta ou pelas demais fontes consultadas.
Sete perguntas para o governo Trump
O documento não se limita à acusação política. Os parlamentares pedem explicações formais sobre uma série de decisões tomadas por Washington nos últimos meses.
Entre os questionamentos estão os critérios utilizados para aplicar sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pela Lei Global Magnitsky; os fundamentos para a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras; e as razões para a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.
Os congressistas também querem saber como o Departamento de Estado coordena suas políticas de promoção da democracia e dos direitos humanos com países da América Latina, especialmente quando essas políticas envolvem processos eleitorais e judiciais.
As duas perguntas diretamente relacionadas ao pleito brasileiro tratam do comportamento de Washington diante da votação. Os parlamentares perguntam se o governo Trump se comprometerá a respeitar o processo eleitoral brasileiro e se reconhecerá o resultado oficial das eleições de 2026, independentemente de qual candidato seja escolhido pelos eleitores.
O calendário estabelecido pelos parlamentares coloca a eventual resposta americana no centro da reta final da campanha brasileira. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, três dias depois do prazo dado a Rubio.
Até sábado (26), porém, não havia sido divulgada resposta pública do Departamento de Estado. A informação foi confirmada por diferentes relatos publicados após o envio da carta.
A ausência de resposta até essa data não significa que o governo americano tenha recusado formalmente responder. O prazo estabelecido pelos congressistas ainda não havia terminado.
Há, além disso, uma manifestação anterior do Departamento de Estado que os próprios parlamentares e reportagens sobre o episódio ajudam a contextualizar. Em agosto, após a revogação do visto da embaixadora brasileira, a pasta afirmou que respeitaria a escolha feita pelo povo brasileiro em eleições livres e justas. Uma porta-voz também declarou posteriormente que a escolha do próximo presidente caberia aos brasileiros.
A carta relaciona suas preocupações a uma série de episódios da relação entre Washington e Brasília.
Os signatários mencionam as tarifas impostas pelo governo Trump a produtos brasileiros, incluindo medidas associadas pelo presidente americano ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, além de novas tarifas adotadas posteriormente. Também citam as sanções contra autoridades brasileiras e a tentativa de envio de funcionários americanos ao Brasil para tratar de questões relacionadas ao sistema eleitoral.
Outro episódio destacado é a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos. Os parlamentares questionam os fundamentos jurídicos da decisão e suas possíveis consequências.
A carta ainda menciona a reunião entre Donald Trump e o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, realizada na Casa Branca. Segundo o documento, a reunião ocorreu antes do anúncio americano sobre as duas organizações criminosas. A sequência temporal é apresentada pelos congressistas como parte dos motivos de sua preocupação, mas a existência dessa sequência não comprova, por si só, que uma decisão tenha sido tomada para favorecer uma candidatura.
A distinção é importante porque a carta é um documento político produzido por parlamentares de um dos partidos americanos.
É fato que 31 congressistas (Sanders e 30 integrantes da Câmara) assinaram o documento, que foi encaminhado a Rubio em 24 de setembro. Também é verificável que a carta menciona tarifas, sanções, a política americana em relação ao PCC e ao Comando Vermelho, a questão dos vistos diplomáticos e a relação do governo Trump com o processo eleitoral brasileiro.
Já a afirmação de que essas medidas constituem uma "interferência" na eleição é a interpretação apresentada pelos parlamentares. O Departamento de Estado, por sua vez, vinha rejeitando anteriormente a ideia de que sua atuação no Brasil tivesse como objetivo interferir no processo eleitoral.
Essa diferença será relevante caso Washington responda às sete perguntas até o prazo estabelecido.
A carta surge em uma fase de forte tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Além das divergências comerciais, os dois governos passaram a divergir publicamente sobre sanções, decisões judiciais brasileiras, política de combate ao crime organizado e questões relacionadas ao processo eleitoral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também abordou o tema durante seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, sem citar diretamente o governo americano, ao afirmar que o Brasil não permitiria que inimigos internos ou externos atuassem contra a vontade dos eleitores.
O episódio acrescenta uma dimensão doméstica americana à disputa: parlamentares democratas estão cobrando explicações de um governo republicano sobre sua política para um aliado e parceiro comercial dos Estados Unidos. A resposta, se vier até o prazo solicitado, poderá esclarecer a posição oficial do Departamento de Estado sobre o processo eleitoral brasileiro e sobre as decisões questionadas pelos congressistas.
Próximo marco: 1º de outubro
O próximo prazo objetivo é 1º de outubro, quando termina a data solicitada pelos 31 parlamentares para que Rubio responda às sete perguntas. No domingo (27), ainda restava uma semana para o primeiro turno brasileiro.
Até o momento desta apuração, não há registro público de uma resposta formal do Departamento de Estado à carta. Portanto, qualquer afirmação sobre a posição que Washington adotará diante dos questionamentos seria especulativa.





















