Brasil amplia mercados de exportação enquanto enfrenta restrições da UE
Brasil amplia mercados de exportação enquanto enfrenta restrições da UE a proteínas animais IBTimes Brasil

Exportações brasileiras bateram recorde no primeiro semestre, com avanço para diferentes destinos, mas o país enfrenta tarifas adicionais dos Estados Unidos e restrições sanitárias europeias que atingem cadeias de proteína animal

O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com exportações recordes e maior diversificação de destinos, em um momento de pressão sobre o comércio com os Estados Unidos e de restrições sanitárias impostas pela União Europeia a produtos brasileiros de origem animal. Entre janeiro e junho, as vendas externas somaram US$ 184,77 bilhões, alta de 11,5% sobre o mesmo período de 2025, enquanto o país ampliou negociações e vendas para mercados da Ásia, Europa e outras regiões.

O movimento ganhou importância depois que os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre parte dos produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para o mercado americano caíram 13% no primeiro semestre, para US$ 17,4 bilhões, e a participação dos EUA no total exportado pelo Brasil recuou de 12,1% para 9,4% em um ano.

Ao mesmo tempo, outros destinos absorveram uma parcela crescente das vendas brasileiras. A China continuou como principal mercado e recebeu US$ 77,1 bilhões em produtos brasileiros entre janeiro e agosto, alta de 15% na comparação anual. No período, as exportações totais do país chegaram a US$ 250,86 bilhões, crescimento de 10,3%.

Os dados usados pela Forbes mostram que o recorde do primeiro semestre não dependeu da expansão do mercado americano. Um levantamento da ApexBrasil citado pela publicação apontou que a redução das vendas aos Estados Unidos, estimada em cerca de US$ 2,6 bilhões, foi mais do que compensada pelo aumento das exportações para outros 17 destinos, que somaram aproximadamente US$ 19,3 bilhões no período.

A diferença entre os mercados também aparece nos dados oficiais mais recentes. Em agosto, as exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 12,1% na comparação anual e alcançaram US$ 3,19 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto, porém, ainda registravam queda de 9,7%, para US$ 24,1 bilhões.

Isso significa que a recuperação mensal não eliminou a perda acumulada durante o ano. O próprio MDIC atribuiu parte importante da redução no primeiro semestre à queda dos embarques de petróleo e de produtos de ferro e aço para os Estados Unidos.

As tarifas americanas são uma parte central desse cenário. O governo brasileiro calcula que as medidas adicionais dos EUA atingem 23,1% das exportações brasileiras ao país, enquanto 52,7% permanecem sem tarifas adicionais específicas ou setoriais contra o Brasil. Entre os produtos submetidos às duas sobretaxas, a cobrança adicional chega a 37,5%.

Europa abre oportunidades, mas impõe uma barreira sanitária

Brasil amplia mercados de exportação enquanto enfrenta restrições da UE
Brasil amplia mercados de exportação enquanto enfrenta restrições da UE a proteínas animais IBTimes Brasil

A União Europeia ocupa posição estratégica nessa tentativa de diversificação. O comércio agrícola entre Brasil e bloco movimentou US$ 21,8 bilhões em exportações brasileiras em 2025, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A UE é também um dos principais mercados para produtos brasileiros do agronegócio.

O cenário, contudo, ficou mais complexo em setembro. A partir de 3 de setembro, entraram em vigor as regras europeias que restringem a entrada de determinados animais e produtos de origem animal de países que não comprovem conformidade com as exigências do bloco sobre o uso de antimicrobianos. A Comissão Europeia afirma que as normas proíbem, entre outras práticas, o uso de determinados antimicrobianos para promoção de crescimento e exigem garantias dos países exportadores.

O Brasil não foi incluído na lista europeia de países autorizados sob essas novas regras. O Mapa informou que a restrição alcança cadeias como carne bovina, aves, ovos, mel e produtos da pesca. O governo brasileiro afirma estar negociando com a Comissão Europeia e já apresentou documentação sobre os mecanismos nacionais de controle.

A medida não deve ser confundida com um bloqueio comercial permanente. A própria Comissão Europeia estabelece que países excluídos podem voltar à lista de autorizados depois de fornecer as informações e garantias necessárias para comprovar conformidade.

Há, inclusive, um primeiro sinal de avanço. Em 4 de setembro, uma auditoria europeia sobre as cadeias brasileiras de aves e mel considerou satisfatórios os controles sanitários apresentados pelo país. O processo de reinclusão desses produtos na lista de fornecedores autorizados ainda depende das etapas burocráticas europeias.

Ásia ganha espaço na estratégia comercial

A diversificação não se limita à Europa. Brasil e Índia discutiram em agosto a ampliação do acordo comercial existente e medidas para facilitar o acesso a mercados e aumentar investimentos. A corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 10,1 bilhões nos primeiros sete meses de 2026, crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Também avançaram iniciativas com Japão, Coreia do Sul e Vietnã. Brasil e Mercosul iniciaram discussões para ampliar as relações comerciais com esses mercados, enquanto Canadá e Emirados Árabes Unidos permanecem entre os parceiros com negociações comerciais em andamento, segundo o levantamento da Forbes.

A expansão, porém, não significa que novos mercados substituam automaticamente os Estados Unidos. Cada setor enfrenta barreiras, padrões sanitários, tarifas, custos logísticos e exigências regulatórias diferentes.

O caso da Índia ilustra essa dificuldade: o acordo preferencial existente entre Mercosul e Índia cobre uma parcela limitada das exportações brasileiras, enquanto tarifas indianas continuam restringindo o acesso de determinados produtos.

Os números indicam que o Brasil conseguiu ampliar as vendas externas enquanto enfrentava uma retração relevante no mercado americano. No acumulado até agosto, as exportações brasileiras cresceram 10,3%, para US$ 250,86 bilhões, e o superávit comercial chegou a US$ 55,32 bilhões.

A diversificação, contudo, não deve ser interpretada como substituição imediata de um mercado por vários outros. Estados Unidos, China e União Europeia possuem pesos diferentes na pauta brasileira, e os produtos vendidos para cada destino também variam.

Além disso, a concentração em alguns grandes parceiros permanece elevada. A China respondeu por 30,7% das exportações brasileiras entre janeiro e agosto, enquanto os Estados Unidos representaram 9,6% no mesmo período.

Para as empresas, o movimento significa uma necessidade maior de adaptação a diferentes padrões comerciais. A ApexBrasil lançou, após as novas tarifas americanas, um plano de R$ 130 milhões voltado à diversificação das exportações e ao apoio a empresas afetadas pelas mudanças nas condições de acesso ao mercado dos EUA.

No curto prazo, portanto, o comércio exterior brasileiro combina dois movimentos simultâneos: o país amplia sua presença em destinos alternativos, enquanto enfrenta obstáculos nos próprios mercados que podem contribuir para essa diversificação. A restrição europeia às proteínas animais é um exemplo de como abrir mercados e manter o acesso a eles são desafios diferentes.