aminhão transporta cana-de-açúcar em um campo na usina de São
Um caminhão transporta cana-de-açúcar em um campo na usina de São Martinho, em Pradópolis 13 de setembro de 2018 REUTERS/Paulo

O clima, e não o preço, deve definir o ritmo da produção de açúcar nas usinas brasileiras nos últimos meses da safra. O tempo mais chuvoso que o normal no centro-sul do país, típico de episódios intensos de El Niño, deve impedir que as usinas ampliem a fabricação do adoçante, como parte do mercado esperava após a valorização da commodity.

Os preços do açúcar subiram mais de 21% no mês passado. Analistas e operadores ouvidos pela Reuters avaliam, porém, que as usinas continuarão a destinar mais cana ao etanol do que ao açúcar. Segundo eles, a alta umidade da cana colhida torna a matéria-prima mais adequada à produção do combustível.

Foco na chuva

Para Marcelo Bonifácio Filho, analista de açúcar da corretora StoneX, o mercado deixou de olhar para os preços ao estimar como as usinas dividirão a produção na reta final da safra. Segundo ele, a atenção agora está no clima. Ele afirmou ainda que a proporção de açúcar só não sobe por causa das condições climáticas.

O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, e o mercado global acompanha de perto o chamado mix das usinas, isto é, a fatia da cana destinada ao açúcar ou ao etanol. Até o início de julho, apenas 42,5% da cana havia sido usada na produção de açúcar. A colheita segue até dezembro.

Estimativas em queda

A StoneX informou que o mercado já havia reduzido sua expectativa para a produção de açúcar no centro-sul, que no início da safra passava de 40 milhões de toneladas. A consultoria vê a possibilidade de que o total não ultrapasse 38 milhões de toneladas.

Novos cortes nas projeções não estão descartados. O analista sênior Michael McDougall afirmou que a previsão de bom volume de chuvas para o início de outubro pode levar a revisões adicionais.

Risco para os preços

A corretora GSX Commodities avaliou que a valorização poderia ser contida se as usinas conseguissem elevar a proporção de açúcar e colocar mais oferta no mercado. Se isso não ocorrer, e se a chuva impedir a colheita de toda a cana disponível, os preços podem subir ainda mais.

O cenário mostra como o clima limita a resposta da indústria aos sinais de mercado. Mesmo com o açúcar mais caro, a umidade excessiva atrapalha a colheita e reduz o potencial de produção do adoçante, enquanto o etanol continua sendo o destino mais adequado para a cana colhida sob chuva.

Atenção do mercado

Investidores e compradores internacionais devem seguir monitorando a evolução do tempo no centro-sul e os dados de moagem das usinas. A combinação de colheita mais lenta, menor rendimento em açúcar e preços já elevados mantém o mercado sensível a qualquer mudança nas previsões meteorológicas. Os próximos relatórios sobre a safra devem mostrar se a proporção destinada ao açúcar continuará abaixo do esperado ou se haverá recuperação no fim do ciclo.