Seca no Brasil
O El Niño pressiona reservatórios do Semiárido e o transporte de combustível para usinas térmicas do Amazonas. Nelson ALMEIDA / AFP via Getty Images

A combinação de seca e de El Niño começa a pressionar o abastecimento de água e a geração de energia no Norte e no Nordeste do Brasil. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) monitora oito sistemas hídricos do Nordeste em situação crítica. Na Amazônia, o receio é que os rios baixos dificultem a chegada de combustível às termelétricas do interior.

Um El Niño previsto como muito forte

Projeções da agência americana NOAA, divulgadas em agosto, indicam chance superior a 80% de o fenômeno se manter até o início de 2027. Há mais de 90% de probabilidade de que atinja intensidade "muito forte" ainda neste semestre. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que a primavera, iniciada em 22 de setembro, começa sob forte influência do El Niño, com condições mais secas em áreas do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste. No Sul, o cenário se inverte: a previsão é de mais chuva e risco de cheias.

Água no Nordeste

Segundo a ANA, o principal risco no Nordeste é a seca. Um grupo técnico da agência já trabalha com cenários de distribuição de água para os açudes do Semiárido, diante da possibilidade de a estação chuvosa de 2026/2027 render menos que o esperado. A recarga dos reservatórios deve cair de forma significativa, o que pode afetar a irrigação e o abastecimento das cidades e exigir reforço no bombeamento do Projeto de Integração do Rio São Francisco.

A agência divulgou um plano de preparação que vale até março de 2027. Ele prevê declarar situação de escassez hídrica em rios e reservatórios federais, negociar condições especiais de operação de reservatórios e definir regras de uso da água nos 57 sistemas hídricos locais do Semiárido. O plano inclui ainda salas de crise regionais e boletins mensais sobre o fenômeno.

Energia e combustível na Amazônia

No Amazonas, muitos municípios dependem de termelétricas a diesel e do transporte fluvial de combustível. O governo estadual decretou emergência preventiva e estima que até 648 mil pessoas possam ser afetadas em 2026. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) antecipou R$ 308,4 milhões, da Conta de Consumo de Combustíveis, para formar estoques nas usinas do interior. A medida prevê a compra de até 42,3 milhões de litros e busca aproveitar a janela de navegação antes que trechos assoreados impeçam o acesso.

A Capitania dos Portos da Amazônia Ocidental alertou que a navegação pode sofrer restrições a partir da segunda quinzena de setembro. O Rio Negro baixa mais rápido que em agosto de 2023, mas ainda não é possível confirmar uma estiagem extrema, segundo a Marinha.

O que observar

O período mais crítico na Amazônia deve ocorrer entre outubro e dezembro. No Nordeste, tudo dependerá do volume da próxima estação chuvosa. Os boletins da ANA e do Monitor de Secas mostrarão se as medidas de contingência bastam para evitar cortes de água e de energia.