Lavoura de sorgo
Lavoura de sorgo Divulgação/LongPing High-Tech

O sorgo, cereal tradicionalmente utilizado na alimentação animal, começa a conquistar espaço em novos segmentos da indústria brasileira. A produção de cerveja com o grão demonstra o potencial de ampliar o consumo humano e agregar valor à cadeia produtiva, em um cenário de crescimento da demanda internacional e busca por matérias-primas alternativas.

A iniciativa foi desenvolvida pela empresa de sementes Advanta Seeds em parceria com o cervejeiro Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer, que utilizou sorgo produzido no interior de São Paulo para elaborar uma bebida inspirada no estilo American Pale Ale. O projeto busca demonstrar que o cereal pode ser aproveitado em produtos de maior valor comercial, além de suas aplicações tradicionais.

A cerveja contém aproximadamente 50% de sorgo em sua composição e foi elaborada para explorar as possibilidades do grão na indústria de bebidas. Um dos diferenciais do cereal é não conter glúten naturalmente, característica que pode ampliar seu potencial em produtos destinados a consumidores que precisam evitar essa proteína.

Apesar das oportunidades, a fabricação apresenta desafios técnicos. Segundo o mestre cervejeiro responsável pelo desenvolvimento da receita, a ausência de malte de sorgo disponível para o projeto exigiu o processamento do grão in natura. O procedimento inclui etapas de gelatinização do amido e utilização de enzimas para transformá-lo em açúcares fermentáveis.

A receita empregou cerca de 70 quilos de sorgo para produzir 300 litros de cerveja. Embora a matéria-prima tenha custo relativamente baixo, o processamento adicional eleva o consumo de energia e pode reduzir a vantagem econômica em comparação com cereais tradicionalmente utilizados na fabricação de cerveja.

Para viabilizar a expansão comercial desse tipo de produto, o desenvolvimento de técnicas de processamento e a ampliação da oferta de ingredientes derivados do sorgo são considerados caminhos importantes.

Produção nacional registra crescimento expressivo

A iniciativa ocorre em um momento de expansão da cultura no Brasil. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), citados pela CNN Brasil, a produção de sorgo passou de 2,08 milhões de toneladas na safra 2020/21 para 7,37 milhões de toneladas em 2025/26, crescimento de aproximadamente 254% no período.

A área plantada também aumentou, alcançando 2,17 milhões de hectares na safra 2025/26. Para o ciclo 2026/27, a Conab projeta uma produção de 8,03 milhões de toneladas, o que representaria uma alta de 9% em relação à temporada anterior.

Parte desse avanço está relacionada à resistência do sorgo à seca e à sua capacidade de adaptação a condições climáticas menos favoráveis. Essas características tornam o cereal uma alternativa para produtores que buscam diversificar as lavouras, especialmente em regiões do Cerrado e em áreas nas quais o plantio do milho enfrenta limitações.

Além da alimentação animal, o grão vem sendo aproveitado na produção de etanol e de coprodutos industriais. Pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também investigam aplicações na alimentação humana, incluindo farinhas, pães, bolos, biscoitos e outros alimentos com maior valor agregado.

Mercado externo amplia oportunidades

A abertura do mercado chinês ao sorgo brasileiro representa outro fator de estímulo à produção. A demanda internacional pelo cereal, utilizado tanto na fabricação de bebidas tradicionais quanto na alimentação animal, cria novas possibilidades de comercialização para os produtores nacionais.

Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, a expansão das exportações e o aumento do consumo interno podem intensificar a concorrência por áreas agrícolas entre o sorgo e outras culturas, como o milho. A indústria de biocombustíveis também aparece como um segmento com potencial para absorver parte da produção.

Nesse contexto, a cerveja de sorgo funciona como uma demonstração prática de que o cereal pode alcançar mercados diferentes daqueles que historicamente sustentaram seu cultivo. A consolidação dessas alternativas, contudo, dependerá da viabilidade econômica do processamento, da demanda dos consumidores e dos investimentos em tecnologia.

A diversificação poderá beneficiar agricultores, empresas de sementes e indústrias de alimentos e bebidas, criando novas oportunidades para a cadeia produtiva. O desafio será transformar experiências inovadoras em produtos competitivos e ampliar o aproveitamento do sorgo sem comprometer a rentabilidade dos produtores.