Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e terras raras
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e terras raras Freepik | Ricardo Stuckert/PR

O Brasil concentra R$ 39,4 bilhões em investimentos nos dez principais projetos relacionados a minerais críticos e estratégicos, em um movimento que pode ampliar a participação do país nas cadeias globais de energia limpa, fertilizantes e tecnologia. Os empreendimentos estão em diferentes estágios de desenvolvimento e ganharam novas perspectivas com a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em setembro de 2026.

O levantamento, divulgado pelo jornal O Globo e repercutido pelo Brasil 247, considera informações do Ministério de Minas e Energia (MME) e de empresas do setor. A expectativa é que os incentivos previstos no novo marco legal contribuam para destravar projetos, ampliar o financiamento e estimular o processamento de matérias-primas em território nacional.

A iniciativa ocorre em um contexto de disputa internacional pelo acesso a recursos essenciais para a fabricação de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Embora o Brasil disponha de reservas relevantes, um dos principais desafios é avançar além da extração e desenvolver etapas industriais que agreguem valor à produção.

Potássio e terras raras concentram projetos estratégicos

Entre os empreendimentos de maior porte está o projeto de potássio de Autazes, no Amazonas, desenvolvido pela Potássio do Brasil. Com investimento previsto de R$ 12,4 bilhões, a iniciativa pretende alcançar uma produção anual de 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes.

O empreendimento é considerado estratégico para o agronegócio brasileiro, que depende de fornecedores internacionais para atender parte significativa de sua demanda por fertilizantes. O avanço da produção doméstica poderá contribuir para reduzir essa vulnerabilidade, embora a concretização do projeto dependa das etapas regulatórias e de implantação necessárias.

Outro destaque é o projeto Caldeira, em Minas Gerais, voltado à produção de terras raras. O interesse de empresas estrangeiras nesse segmento aumentou diante da necessidade mundial de diversificar o fornecimento desses elementos, atualmente dominado pela China em diversas etapas da cadeia produtiva.

As terras raras são utilizadas na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, fundamentais para motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas e diferentes aplicações tecnológicas. O Brasil possui reservas expressivas, mas ainda precisa ampliar sua capacidade de separação, refino e transformação desses materiais.

Além desses projetos, iniciativas de exploração e processamento mineral em diferentes regiões do país buscam desenvolver novas fontes de matérias-primas e tecnologias para atender à demanda industrial.

BNDES amplia apoio ao processamento mineral

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem papel relevante no financiamento dessa expansão. Em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a instituição selecionou 56 planos de negócios em uma chamada pública voltada ao desenvolvimento do setor, com negociações mais avançadas com 12 empresas, segundo informações divulgadas pela imprensa.

A estratégia busca estimular projetos que incluam beneficiamento e transformação mineral, em vez de financiar exclusivamente a extração. A proposta está alinhada à política de reindustrialização do governo federal e à necessidade de desenvolver fornecedores, tecnologia e mão de obra especializada no país.

O financiamento é considerado um dos principais obstáculos para a expansão da indústria. Projetos minerais exigem grandes aportes iniciais e podem levar anos até alcançar a produção comercial, o que aumenta os riscos para investidores e instituições financeiras.

Novo marco legal prevê incentivos e garantias

Sancionada em 16 de setembro, a Lei nº 15.506/2026 instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação prevê instrumentos para incentivar a pesquisa, o beneficiamento e a industrialização desses recursos, com foco na agregação de valor e na redução da dependência externa.

Entre as medidas previstas estão incentivos fiscais e a criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral, que poderá receber até R$ 2 bilhões em recursos da União. O mecanismo tem como objetivo reduzir riscos financeiros e facilitar o acesso das empresas a crédito de longo prazo.

A aplicação efetiva dos instrumentos dependerá da regulamentação e da estruturação dos mecanismos de apoio. Representantes do setor mineral também apontam a necessidade de ampliar a formação de profissionais especializados e desenvolver tecnologias próprias para o processamento dos recursos.

Desafio é transformar reservas em riqueza industrial

A expansão dos investimentos abre oportunidades para o Brasil fortalecer sua posição em cadeias produtivas estratégicas. Entretanto, a disponibilidade de recursos naturais, por si só, não garante competitividade internacional. A capacidade de atrair financiamento, desenvolver tecnologia e cumprir exigências ambientais será decisiva para a execução dos projetos.

O objetivo do governo é ampliar a participação nacional nas etapas de maior valor agregado, criando oportunidades para a indústria e reduzindo a exposição a fornecedores estrangeiros em setores essenciais.

Com R$ 39,4 bilhões previstos nos dez principais empreendimentos, o setor de minerais críticos passa a ocupar espaço relevante na estratégia industrial brasileira. O resultado dependerá da transformação dos investimentos anunciados em projetos efetivamente implantados, produção comercial e capacidade tecnológica nacional.