USP Identifica Nova Estratégia Contra A Leishmaniose
Compostos experimentais bloquearam uma enzima do parasita e mostraram seletividade, mas ainda precisam passar por novos testes antes de qualquer estudo em humanos.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram uma nova estratégia molecular para combater a leishmaniose cutânea, doença causada por parasitas do gênero Leishmania. O estudo, conduzido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP), descreve os primeiros inibidores covalentes desenvolvidos contra uma enzima essencial para a sobrevivência do Leishmania braziliensis, uma das principais espécies associadas à doença no Brasil e em outros países das Américas.
O trabalho foi publicado no Journal of Medicinal Chemistry e teve como primeira autora a pesquisadora Thamires Quadros Froes, durante seu estágio de pós-doutorado no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos e Fragmentos Moleculares (Craft). A pesquisa foi coordenada pelos professores Maria Cristina Nonato e Flávio da Silva Emery, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da organização Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi).
Enzima É O Alvo Da Pesquisa
A estratégia desenvolvida pela equipe tem como alvo a diidroorotato desidrogenase (DHODH), uma enzima envolvida na produção de pirimidinas, componentes necessários para a formação de DNA e RNA. Segundo o Jornal da USP, bloquear essa etapa interfere em processos fundamentais para o crescimento e a multiplicação do parasita.
Para alcançar esse objetivo, os pesquisadores desenvolveram derivados do ácido barbitúrico capazes de estabelecer uma ligação covalente com a enzima. Entre os compostos analisados, a molécula denominada 2i apresentou resultados de destaque nos testes laboratoriais: inibiu fortemente a atividade da DHODH do parasita e apresentou atividade contra formas cultivadas de Leishmania braziliensis.
Outro resultado considerado relevante foi a seletividade observada nos experimentos. O composto não inibiu a versão humana da enzima e não apresentou toxicidade para células de defesa humanas utilizadas nos testes. Os pesquisadores também utilizaram estruturas tridimensionais obtidas por cristalografia de raios X para observar como as moléculas interagem com a enzima e confirmar a ligação com a Cys131, um aminoácido presente no local de ação estudado.
Pesquisa Ainda Está Em Fase Inicial
Apesar dos resultados, os compostos identificados ainda não são medicamentos. O grupo pretende ampliar os testes de toxicidade, avaliar a atividade contra diferentes espécies de Leishmania e verificar se as moléculas conseguem alcançar células infectadas. Os candidatos mais promissores poderão posteriormente ser avaliados em modelos animais, antes de qualquer eventual estudo clínico em humanos.
A pesquisa também busca verificar se a estratégia pode ser aplicada a outras espécies do parasita. Para a USP, o estudo representa uma etapa inicial na busca por novos compostos contra uma doença que ainda enfrenta limitações relacionadas à toxicidade, à duração e à variabilidade dos tratamentos disponíveis.

