Campos agrícolas
Pesquisadores da USP apontam que o fenômeno deve redistribuir as chuvas e afetar de forma desigual as regiões agrícolas do país. NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images

O Super El Niño, que se consolida na região equatorial do Oceano Pacífico, pode se tornar um dos principais fatores de risco climático para a agricultura brasileira nas safras de 2026 e 2027, de acordo com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) ouvidos pelo Jornal da USP. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que o fenômeno se intensifique nos próximos meses e indica probabilidade próxima de 100% de que seus efeitos se prolonguem até fevereiro de 2027.

O que é o El Niño

O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, o que modifica as correntes de vento e os padrões de chuva e temperatura em escala global. Desvios a partir de +0,5 °C em relação à média histórica, entre 1991 e 2020, já indicam que ele está estabelecido. O episódio atual é um dos mais intensos desde 2015.

Seca na Amazônia e mais chuva no Sul e no Sudeste

Augusto Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explica que, com o fenômeno, o ar desce sobre a Amazônia e dificulta a formação de tempestades, sobretudo nesta época do ano. Como resultado, a região tende a ter seca e menos chuva, enquanto a umidade é levada pela circulação atmosférica ao Sul e ao Sudeste, onde as precipitações aumentam.

Efeitos desiguais nas lavouras

Fábio Marin, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, afirma que os impactos variam por região, e não por cultura. Segundo ele, a soja do norte de Mato Grosso deve ser afetada por uma leve queda de chuvas, enquanto a do Rio Grande do Sul e a do Paraná tendem a ser favorecidas. O pesquisador avalia que uma região pode compensar a outra, de modo que a produção nacional seja tão boa quanto na última safra.

A lógica vale para o milho e a cana-de-açúcar. A cultura canavieira, concentrada em quase 60% no estado de São Paulo, tende a produzir mais em 2027. Café e trigo também devem ser mais beneficiados do que prejudicados, segundo Marin.

O caso do Nordeste

No Nordeste, onde há muita agricultura familiar, o efeito depende também do Atlântico, que ainda precisa ser monitorado, segundo Marin. Se o Atlântico Tropical Sul estiver mais quente, a região pode não sentir o fenômeno, mesmo que ele seja forte; se o mais aquecido for o Tropical Norte, o El Niño se manifesta. As áreas irrigadas, por contarem com suprimento hídrico, tendem a enfrentar melhor a variação das chuvas.

Resiliência e preparação

Marin considera a agricultura brasileira medianamente resiliente: o El Niño não derruba a produção de forma substancial, e ele vê nos recordes de produtividade um possível indício dessa capacidade, especialmente nas lavouras de grãos. Pereira Filho ressalta a importância de ações coordenadas de governos municipais, estaduais e federal, com monitoramento e mitigação, que reduzem perdas materiais e, sobretudo, humanas.