Vista geral do aeroporto de Brasília
Vista geral do aeroporto de Brasília Bento Viana/Divulgação

Uma representação apresentada ao Tribunal de Contas da União (TCU) por empresas interessadas na concessão do Aeroporto Internacional de Brasília colocou em dúvida a transparência do processo de leilão, previsto para 17 de dezembro de 2026. O questionamento envolve o acesso a contratos comerciais da atual concessionária, a Inframerica, considerados fundamentais para que os possíveis concorrentes avaliem o valor econômico do empreendimento.

O principal argumento apresentado pelas empresas é que aproximadamente 60% das receitas do aeroporto têm origem em atividades comerciais e acessórias, como lojas, restaurantes, estacionamentos e outros serviços oferecidos no terminal. Por esse motivo, os interessados defendem que precisam conhecer os contratos firmados pela concessionária com terceiros para calcular adequadamente os custos, as receitas e o potencial de rentabilidade da operação.

Inicialmente, a Inframerica resistiu à divulgação dos documentos, alegando que os contratos possuem informações sigilosas. Entretanto, segundo informações obtidas pela CNN Brasil, houve uma sinalização interna de que a empresa poderá disponibilizar os dados aos interessados na disputa. Até o momento da publicação da reportagem, porém, os documentos ainda não haviam sido entregues.

A representação está sob análise da área técnica do TCU, em procedimento sigiloso. Embora ainda não exista uma decisão definitiva do tribunal, a situação pode gerar insegurança jurídica para o processo. Isso porque o leilão poderá acontecer normalmente em dezembro, mesmo sem uma conclusão prévia sobre o questionamento. Entretanto, uma eventual decisão posterior do TCU poderia comprometer a validade do certame e até levar à sua anulação.

A controvérsia ocorre em um momento importante para a reorganização da concessão do aeroporto. O edital publicado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em setembro, estabelece a realização de um procedimento competitivo para selecionar o responsável pela administração do terminal e de outros dez aeroportos regionais.

O projeto faz parte de uma repactuação contratual aprovada pelo TCU em abril de 2026. A mudança busca restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro da concessão, que enfrentou dificuldades decorrentes da redução da demanda de passageiros em relação às projeções iniciais, além dos impactos da pandemia de Covid-19 e das mudanças no setor aéreo.

Investimentos e desafios da concessão

A nova modelagem prevê aproximadamente R$ 1,2 bilhão em investimentos no Aeroporto de Brasília. Entre as principais intervenções estão a construção de um novo terminal internacional, a implantação de um edifício-garagem, uma nova via de acesso e a aquisição de equipamentos de segurança e inspeção de passageiros e bagagens.

Além do terminal da capital federal, o vencedor deverá assumir a administração de dez aeroportos regionais localizados em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Bahia. A inclusão desses terminais integra o programa AmpliAR, voltado à ampliação da infraestrutura aeroportuária regional.

Outro ponto que preocupa os investidores é o prazo restante da concessão, previsto até 2037, considerado relativamente curto diante dos investimentos exigidos e das responsabilidades adicionais.

Segundo informações da reportagem, dois grupos demonstram interesse efetivo em participar da disputa. O governo federal realizou apresentações do projeto a investidores em abril e outubro, buscando ampliar a concorrência.

A Inframerica, atual responsável pela operação do aeroporto, foi procurada para comentar os questionamentos apresentados ao TCU, mas não se manifestou.

O desfecho da análise do tribunal será importante para determinar se as dúvidas sobre o acesso às informações comerciais serão resolvidas antes do leilão. A transparência na disponibilização dos dados é considerada essencial para garantir condições equilibradas entre os concorrentes e preservar a segurança jurídica de uma das principais concessões aeroportuárias do país.