Presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso em 14 de agosto de 2026
Presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso em 14 de agosto de 2026 Ken Cedeno/Reuters

O anúncio da sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros já provoca efeitos práticos nas exportações do país, mesmo antes de a medida ser plenamente aplicada. Empresários relatam insegurança nos contratos, e o governo tenta evitar o pior em negociações com Washington.

O setor da pesca foi um dos primeiros a sentir o impacto: quase 60 contêineres de pescado que estavam prestes a embarcar tiveram a exportação interrompida em portos do Nordeste. Segundo a reportagem, a medida pode atingir outros segmentos e, caso as vendas aos americanos caiam, mexer também nos preços praticados no mercado interno.

Pequenas empresas na linha de frente

As empresas de menor porte estão entre as mais vulneráveis. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) estima que cerca de 2 mil pequenas e médias empresas exportem para os EUA, num volume de aproximadamente US$ 500 milhões por ano. O valor parece pequeno diante dos quase US$ 40 bilhões movimentados pelas grandes exportadoras, mas a entidade lembra que essas companhias têm cadeias produtivas próprias e são altamente especializadas.

Para a CACB, o problema é a falta de fôlego. Sem estrutura ou margem de negociação, essas empresas podem simplesmente desaparecer do mapa, alerta a entidade. Outro dirigente da confederação afirmou que, se a tarifa se mantiver, esses negócios dificilmente encontrarão outros contratos com rapidez.

Negociação e plano B

O governo brasileiro afirmou que seguirá negociando com os Estados Unidos para barrar a tarifa de 50%, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto. Em paralelo, cresce o discurso da diversificação. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, defendeu a busca por mercados do Oriente Médio, do sul da Ásia e do chamado sul global, vistos como alternativas com grande potencial de consumo.

Por que não é simples substituir os EUA

Na prática, o caminho é mais difícil do que o discurso sugere. Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China, e respondem por parcela relevante das vendas de bens de maior valor agregado. Substituir esse mercado é particularmente complicado no caso dos produtos industrializados. (investnews) (band)

Abrir novos clientes exige tempo, certificações, logística e capital de giro, recursos que as pequenas empresas costumam ter em menor quantidade. Quem exporta produtos sob medida para o consumidor americano também não consegue redirecionar a produção de um dia para o outro.

Reação nos próprios EUA

A tarifa também enfrenta resistência do outro lado. Em nota conjunta, a Câmara de Comércio dos EUA e a AmCham Brasil alertaram que a medida ameaça a competitividade da indústria americana e encarece produtos para as famílias. A entidade americana diz que mais de 6.500 pequenas empresas dos EUA dependem de produtos brasileiros e defende uma solução negociada.

Enquanto não há acordo, exportadores brasileiros seguem num cenário de incerteza. Especialistas avaliam que ampliar a carteira de países é necessário, mas que o resultado só aparece no médio e no longo prazo, e que as empresas pequenas dependem de apoio para atravessar esse período.