Trabalho infantil cai no Brasil, mas 525 mil menores seguem em atividades perigosas
Dados do IBGE mostram o menor número da série histórica, mas 525 mil menores ainda estavam em atividades consideradas entre as piores formas de trabalho infantil.

O Brasil registrou uma redução no número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil em 2025, mas o problema continua atingindo milhões de jovens. Segundo dados divulgados nesta sexta-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país contabilizou 1,499 milhão de pessoas entre 5 e 17 anos nessa condição, equivalente a 4% da população dessa faixa etária.
Os números fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Na comparação com 2024, quando foram registrados 1,65 milhão de casos, houve uma queda de 9,2%, correspondente a aproximadamente 151 mil crianças e adolescentes a menos nessa situação. O resultado representa o menor patamar da série histórica iniciada em 2016.
Apesar do avanço, a pesquisa aponta que 525 mil crianças e adolescentes ainda estavam envolvidos nas chamadas piores formas de trabalho infantil. Essas atividades são consideradas especialmente prejudiciais à saúde, à segurança e ao desenvolvimento físico, psicológico e moral dos menores.
A classificação inclui ocupações perigosas ou insalubres e situações de exploração, como trabalho forçado, exploração sexual e envolvimento em atividades ilícitas. No Brasil, essas atividades são relacionadas à Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil, estabelecida pelo Decreto Federal nº 6.481, de 2008.
Políticas sociais e mercado de trabalho
De acordo com o pesquisador do IBGE Gustavo Fontes, a diminuição registrada em 2025 pode ser explicada por uma combinação de fatores econômicos e políticas públicas. Entre eles estão os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, o aumento da renda domiciliar e o aquecimento do mercado de trabalho.
O levantamento identificou uma redução particularmente expressiva entre crianças e adolescentes de famílias beneficiárias do Bolsa Família. Entre 2016 e 2025, o contingente nessa condição caiu 41% nesse grupo, enquanto a redução geral no país foi de aproximadamente 29%.
Os dados, entretanto, não permitem atribuir a queda a uma única causa. O resultado reflete diferentes condições econômicas e sociais que influenciam a entrada ou a permanência de menores em atividades laborais.
Adolescentes concentram a maior parte dos casos
A incidência do trabalho infantil aumenta conforme a idade. Entre crianças de 5 a 13 anos, 280 mil estavam nessa situação em 2025, o equivalente a 1,1% da população dessa faixa etária. Entre adolescentes de 14 e 15 anos, eram 348 mil, ou 5,9%. Já no grupo de 16 e 17 anos, o número chegou a 871 mil, correspondendo a 14,5%.
A pesquisa também revelou impactos na educação. Embora a frequência escolar seja elevada entre as crianças mais novas, a proporção diminui entre os adolescentes que trabalham. Na faixa de 16 e 17 anos, apenas 79,6% frequentavam a escola, percentual inferior aos 89,6% observados para a população total dessa idade.
Além disso, 21,4% das crianças e dos adolescentes em situação de trabalho infantil enfrentavam jornadas de 40 horas semanais ou mais, condição que pode comprometer o tempo dedicado aos estudos, ao descanso e ao lazer.
Desigualdades regionais e sociais persistem
Em números absolutos, o Sudeste concentrou o maior contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil casos. O Nordeste apareceu em seguida, com 408 mil. Entretanto, proporcionalmente, a Região Norte apresentou a maior incidência, atingindo 6,3% da população de 5 a 17 anos.
O levantamento também identificou desigualdades por sexo e cor ou raça. Os meninos representavam 65,4% do total de pessoas nessa condição, enquanto crianças e adolescentes pretos e pardos correspondiam a 67% dos casos.
Os resultados reforçam que o combate ao trabalho infantil exige atenção às desigualdades socioeconômicas, ampliação da proteção social e medidas que garantam o acesso à educação.
Embora a redução observada em 2025 represente um avanço, o número de menores submetidos a atividades laborais continua elevado. O desafio das autoridades é manter a trajetória de queda, fortalecer a fiscalização e assegurar condições para que crianças e adolescentes possam estudar e se desenvolver com segurança.

