Agro brasileiro defende pragmatismo nas relações com China e Estados Unidos
Com a China responsável por 36,1% das exportações do setor, representantes alertam para os riscos de uma guinada diplomática que afete comércio e investimentos.

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras reacendeu o debate sobre os rumos da política externa e seus possíveis efeitos sobre o agronegócio. Embora um eventual governo mais alinhado aos Estados Unidos possa estreitar relações políticas e comerciais com Washington, representantes e especialistas do setor defendem que o Brasil preserve uma relação equilibrada com Pequim.
A preocupação tem uma razão econômica: a China é atualmente o principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a participação chinesa nas exportações do setor passou de 2,73% em 2000 para 36,1% em 2023, o maior percentual registrado na série histórica da pasta.
A importância do mercado chinês vai além das vendas de commodities. A China também possui investimentos no Brasil e participa de projetos relacionados à infraestrutura e à logística, áreas consideradas estratégicas para ampliar a capacidade de escoamento da produção agrícola brasileira.
O tema foi discutido em um evento realizado no Insper, em São Paulo, sobre segurança alimentar e os desafios do agronegócio. A especialista em China Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e coordenadora do Programa Ásia do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), avaliou que Pequim acompanha com atenção a possibilidade de maior aproximação dos países latino-americanos com os Estados Unidos.
Segundo Wachholz, a China busca avaliar onde seus investimentos e relações comerciais são bem recebidos. Para os chineses, afirmou a especialista, ambientes de confronto geopolítico podem representar riscos para projetos de longo prazo. Por isso, estabilidade jurídica e previsibilidade nas relações internacionais são fatores relevantes para a manutenção dos investimentos.
A avaliação ganha peso diante da disputa estratégica entre Washington e Pequim. Os Estados Unidos vêm reforçando sua atenção sobre a América Latina, enquanto a China ampliou sua presença comercial e econômica na região. Para o Brasil, assumir uma posição excessivamente vinculada a apenas uma das potências poderia criar dificuldades para setores dependentes do comércio exterior.
No agronegócio, a preocupação é especialmente prática. Soja, carnes, milho, café, açúcar e outros produtos brasileiros disputam mercados internacionais e dependem de relações comerciais estáveis. Uma deterioração significativa dos vínculos com a China poderia afetar exportadores, preços e investimentos em cadeias produtivas.
Nesse contexto, integrantes do setor defendem uma política externa pragmática, capaz de manter canais de diálogo tanto com Washington quanto com Pequim. A lógica é separar disputas políticas e ideológicas dos interesses econômicos de longo prazo do país.
A expressão que circula entre representantes do setor resume essa posição: "frango não tem partido". A ideia é que, independentemente de preferências políticas, a produção brasileira precisa continuar encontrando compradores e condições favoráveis nos principais mercados internacionais.
Para o agro, portanto, a prioridade é preservar a diversificação comercial e evitar que o Brasil seja colocado diante de uma escolha rígida entre China e Estados Unidos. Em um cenário internacional marcado pela crescente competição entre as duas potências, o equilíbrio diplomático é visto como uma ferramenta para proteger mercados, investimentos e a competitividade das exportações brasileiras.

