Família de Marielle Franco denuncia ataques racistas em grupo
Família de Marielle Franco denuncia ataques racistas em grupo de WhatsApp ligado à PUC-Rio Palácio do Planalto/Creative Commons Attribution 2.0 Generic CC BY 2.0

Luyara Franco pediu investigação após a circulação de comentários racistas contra sua mãe em um grupo de WhatsApp com integrantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A universidade confirmou que um aluno proferiu ofensas contra a memória da ex-vereadora e anunciou uma investigação interna para apurar o caso.

A família de Marielle Franco denunciou novos ataques racistas contra a memória da ex-vereadora do Rio de Janeiro, assassinada em março de 2018. As ofensas teriam sido publicadas em um grupo de WhatsApp com integrantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), instituição onde Marielle estudou Ciências Sociais. Após a denúncia apresentada por sua filha, Luyara Franco, a universidade confirmou que um aluno da instituição fez comentários de caráter racista e informou ter iniciado uma investigação interna para identificar as circunstâncias do episódio e avaliar as medidas cabíveis.

A denúncia ganhou repercussão em 30 de outubro, depois que Luyara tornou público o conteúdo das mensagens e cobrou uma resposta institucional. A manifestação foi compartilhada com o Instituto Marielle Franco e destacou que os ataques atingem não apenas a memória da ex-vereadora, mas também sua trajetória como mulher negra que conseguiu ingressar e construir sua formação acadêmica em uma universidade de prestígio.

Segundo o relato divulgado pela filha, um participante do grupo teria utilizado uma expressão racista contra Marielle e questionado como ela teria conseguido pagar pelos estudos na PUC-Rio. As mensagens foram denunciadas como manifestações discriminatórias, e não como simples divergências de opinião.

A universidade confirmou que recebeu registros por meio de sua Ouvidoria e de seu Canal Externo de Denúncias. Em comunicado divulgado em 30 de outubro, a Reitoria e a Coordenação Central de Integridade informaram que o responsável pelas manifestações era um aluno da instituição e que o caso seria investigado dentro do Programa de Integridade da universidade.

Universidade anuncia investigação interna

Na manifestação oficial, a PUC-Rio declarou que rejeita atos discriminatórios praticados por integrantes de sua comunidade e que adotará as providências administrativas e legais consideradas necessárias após a apuração.

A instituição também relacionou o episódio à própria história acadêmica de Marielle Franco, que se formou em Ciências Sociais na universidade. O comunicado destacou a importância da trajetória da ex-vereadora e reafirmou o compromisso institucional com a educação antirracista e a preservação de sua memória.

A abertura de uma investigação interna representa uma resposta formal à denúncia, mas não significa que todas as responsabilidades já tenham sido estabelecidas. A universidade ainda precisa apurar as circunstâncias em que as mensagens foram publicadas, a participação dos envolvidos e a eventual existência de outras condutas discriminatórias relacionadas ao episódio.

Também é importante distinguir a apuração administrativa conduzida pela instituição de uma eventual investigação criminal. A confirmação da universidade sobre a existência de manifestações racistas não equivale, por si só, a uma condenação judicial do estudante envolvido.

No Brasil, o racismo é tratado pela Constituição Federal como crime inafiançável e imprescritível. A legislação também prevê punições para diferentes formas de discriminação racial e injúria racial. A caracterização jurídica de cada conduta, entretanto, depende da análise dos fatos e das circunstâncias concretas.

A memória de Marielle continua no centro de disputas públicas

Marielle Franco foi assassinada em 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. Ela estava em um automóvel quando o veículo foi atingido por disparos de arma de fogo. O motorista Anderson Gomes também morreu no atentado.

O crime provocou repercussão nacional e internacional e se tornou um dos casos mais emblemáticos de violência política no Brasil. Marielle era vereadora pelo PSOL, defensora dos direitos humanos e conhecida por sua atuação em temas relacionados à igualdade racial, aos direitos das mulheres e às condições de vida nas periferias.

Em 2024, os executores confessos do assassinato, os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, foram condenados. Outras pessoas também receberam condenações relacionadas ao planejamento e à execução do crime, ampliando a responsabilização judicial pelo atentado.

A repercussão do caso ultrapassou o processo criminal. Desde sua morte, a imagem e a trajetória de Marielle passaram a integrar debates sobre representação política, racismo, violência contra mulheres negras e participação de grupos historicamente marginalizados nas instituições brasileiras.

Por isso, os novos ataques denunciados pela família adquiriram uma dimensão que vai além de uma discussão ocorrida em um aplicativo de mensagens. A controvérsia envolve o respeito à memória de uma pessoa assassinada em razão de um crime de grande repercussão e a responsabilidade de uma instituição universitária diante de manifestações discriminatórias em sua comunidade.

Outro episódio havia provocado reação da família

A denúncia de 30 de outubro ocorreu depois de um episódio anterior, registrado no dia 13 do mesmo mês, nas proximidades da PUC-Rio. Na ocasião, manifestantes durante um ato político fizeram comentários que ironizavam a morte de Marielle.

Vídeos divulgados nas redes sociais mostraram participantes utilizando referências à morte da ex-vereadora em tom de deboche. O episódio também provocou manifestações públicas de Luyara Franco e de Anielle Franco, irmã de Marielle.

A repetição de situações envolvendo ofensas à memória da ex-vereadora ajuda a explicar a cobrança por uma resposta institucional mais ampla. Para a família, a investigação precisa identificar os responsáveis e estabelecer consequências compatíveis com a gravidade dos atos denunciados.

Até o momento, a PUC-Rio confirmou a abertura do procedimento interno, mas não divulgou o resultado da apuração nem eventuais sanções. A definição das responsabilidades dependerá das informações reunidas pela universidade e de possíveis encaminhamentos às autoridades competentes.