André Lara Resende questiona política de juros do Banco Central e reacende debate sobre dívida pública
Economista defende reduzir a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em 12 meses e propõe coordenação entre as políticas fiscal e monetária.

O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, voltou a colocar em discussão a política econômica brasileira ao atribuir ao Banco Central (BC) uma parcela central da responsabilidade pelo crescimento da dívida pública. Em artigo divulgado nesta segunda-feira, 2 de novembro de 2026, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contestou a interpretação de que os gastos públicos são o principal fator de desequilíbrio fiscal e afirmou que o elevado custo dos juros representa o maior problema das contas do país.
Em sua análise, Lara Resende argumenta que a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em patamares elevados aumenta significativamente as despesas financeiras do governo. Segundo o economista, a cobrança de juros sobre a dívida pública acaba ampliando o próprio endividamento que a política monetária busca controlar.
A crítica foi expressa em um artigo no qual o economista responsabiliza diretamente a autoridade monetária pela sustentação de uma política que, em sua avaliação, contribui para agravar o desequilíbrio fiscal. Ele também questiona a interpretação predominante no mercado financeiro e em parte dos meios de comunicação de que o crescimento das despesas primárias — destinadas a financiar serviços públicos, investimentos e programas governamentais — seria o principal responsável pela expansão da dívida.
A discussão ocorre em um cenário de pressão sobre as contas públicas brasileiras. Dados divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro mostram que os juros nominais do setor público somaram R$ 1,205 trilhão nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, equivalente a 8,99% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, o déficit primário acumulado foi de R$ 70,1 bilhões, correspondente a 0,52% do PIB. A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB.
Os argumentos apresentados por Lara Resende também envolvem os efeitos dos juros elevados sobre a economia. Para ele, o crédito caro compromete o consumo das famílias, dificulta o financiamento das empresas e reduz os investimentos produtivos. O economista considera ainda que a remuneração dos títulos públicos favorece principalmente os detentores de grandes patrimônios, contribuindo para ampliar a concentração de renda.
Como alternativa, o ex-presidente do BNDES propõe uma redução gradual da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, para aproximadamente 7,5% em um período de 12 meses. A proposta inclui a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por coordenar as políticas fiscal e monetária e estabelecer objetivos conjuntos para um horizonte de quatro a cinco anos.
O economista reconhece que uma redução acelerada dos juros poderia provocar inicialmente desvalorização do real e pressões inflacionárias. Para enfrentar esse risco, sugere utilizar parte das reservas internacionais brasileiras, estimadas em aproximadamente US$ 350 bilhões, para conter movimentos cambiais que poderiam pressionar os preços internos.
A proposta, entretanto, divide opiniões no mercado financeiro. Parte dos analistas considera que a manutenção de juros elevados está relacionada às incertezas sobre a trajetória das contas públicas e à necessidade de controlar a inflação. Na avaliação desse grupo, uma redução dos juros sem medidas fiscais consistentes poderia enfraquecer a credibilidade da política monetária, provocar fuga de investimentos e elevar as expectativas inflacionárias.
A discussão também chegou ao governo federal. A deputada Gleisi Hoffmann, do PT, manifestou apoio público às ideias do economista. Por outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a proposta de estabelecer limites para a Selic não está na agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e negou a existência de uma reunião oficial prevista entre ambos para discutir o assunto.
O debate evidencia duas interpretações distintas sobre o equilíbrio das contas públicas brasileiras: de um lado, a defesa de maior controle das despesas governamentais; de outro, a avaliação de que o custo financeiro da dívida precisa receber prioridade na formulação da política econômica.
Embora não exista consenso sobre a solução, os dados recentes demonstram o peso significativo dos juros no orçamento público. A discussão deverá continuar entre economistas, autoridades e representantes do mercado financeiro, especialmente diante dos desafios de conciliar crescimento econômico, controle da inflação e sustentabilidade da dívida pública.

