Drones e IA Identificam Momento Ideal Para Vender Gado
Tecnologia da Embrapa Agricultura Digital alcançou 95,56% de precisão e antecipou em cerca de uma semana a desaceleração do crescimento dos bovinos nos testes.

Uma tecnologia que combina drones e inteligência artificial (IA) promete tornar a pecuária de corte mais eficiente no Brasil. Desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, o sistema analisa imagens aéreas de bovinos para acompanhar seu desenvolvimento e identificar o momento economicamente mais vantajoso para a comercialização ou o abate. A proposta é substituir parte das pesagens tradicionais por um monitoramento remoto, reduzindo a necessidade de movimentar os animais e os custos associados ao confinamento.
A inovação utiliza imagens captadas por drones que sobrevoam os rebanhos a aproximadamente 15 metros de altura. Com algoritmos de deep learning, o sistema identifica individualmente os animais, delimita seus contornos corporais e extrai medidas morfológicas. Entre os indicadores analisados está a proporção entre a largura e o comprimento do corpo, que permite acompanhar as mudanças físicas dos bovinos ao longo do período de engorda.
A partir dessas informações, os pesquisadores conseguem mapear a curva de crescimento do rebanho e identificar quando o ganho de peso começa a perder intensidade. Esse momento é importante para a gestão da produção: depois de determinada fase, os animais passam a converter a alimentação em ganho de carne com menor eficiência. Assim, mantê-los por mais tempo no confinamento pode elevar os gastos sem proporcionar um retorno proporcional ao produtor.
O sistema foi desenvolvido para acompanhar bovinos da raça Nelore e alcançou 95,56% de precisão na identificação dos animais durante os testes do modelo de detecção. A tecnologia também incorpora filtros que descartam imagens de bovinos deitados ou em posições inadequadas, evitando que essas condições comprometam os cálculos realizados para o lote.
A validação em campo ocorreu na Fazenda Campanário, em Laguna Carapã, no Mato Grosso do Sul, propriedade que mantém aproximadamente 14,6 mil bovinos em confinamento. O experimento acompanhou 110 animais durante 112 dias, com 12 operações de monitoramento aéreo realizadas em intervalos de aproximadamente dez dias.
Os resultados indicaram que o sistema identificou a desaceleração do crescimento cerca de uma semana antes da previsão obtida pelo manejo convencional. No lote monitorado, a economia estimada foi de R$ 15 mil. Caso os resultados fossem projetados para todo o rebanho confinado da propriedade, a eficiência operacional e financeira poderia representar um ganho próximo de R$ 2 milhões.
Outro benefício observado está relacionado ao bem-estar animal. Como os drones podem realizar o monitoramento sem exigir que cada bovino seja conduzido até estruturas de contenção para pesagem, o procedimento reduz situações de estresse e o risco de lesões associados ao manejo tradicional. Nos testes realizados a 15 metros de altura, os animais não demonstraram perceber a presença dos equipamentos, mantendo seus comportamentos habituais.
A pesquisa integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O trabalho também abre possibilidades para novas aplicações, como a identificação remota de comportamentos associados ao estresse e o monitoramento de vacas leiteiras, incluindo estudos voltados à detecção precoce de mastite.
Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda precisa avançar para a etapa de protótipo funcional completo e transferência ao mercado. Os pesquisadores buscam parcerias com empresas e startups do agronegócio para ampliar sua aplicação comercial e adaptar o sistema a diferentes condições de produção e raças bovinas.

