bandeira da ONU na sede das Nações Unidas em Nova
A bandeira da ONU na sede das Nações Unidas em Nova York, em 21 de setembro de 2026 Brendan McDermid/Reuters

A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma das mais delicadas crises financeiras dos últimos anos, marcada pela redução de contribuições internacionais, cortes de pessoal e incertezas sobre a continuidade de operações humanitárias. Para 2026, o orçamento regular da organização foi reduzido em 7% em relação ao ano anterior, enquanto cerca de 10 mil postos de trabalho foram eliminados ou estão ameaçados no conjunto de suas estruturas. O cenário aumenta os riscos para missões internacionais e para programas de assistência a refugiados, incluindo pessoas acolhidas no Brasil.

A crise é agravada pela diminuição dos recursos voluntários destinados à ajuda humanitária, especialmente após mudanças na política externa dos Estados Unidos. O governo norte-americano tem condicionado parte de seu apoio financeiro a mudanças na estrutura e no funcionamento das Nações Unidas, ampliando as pressões por reformas internas. Críticos consideram que a utilização dos repasses como instrumento de pressão política compromete a autonomia da instituição.

Segundo informações divulgadas pelo Portal Inhaí em 10 de outubro, o sistema das Nações Unidas contava com 130.948 postos de trabalho em 2024. Em 2025, esse número caiu para 120.176, uma redução de aproximadamente 8%. Para 2026, foram previstas outras eliminações de cargos, além de medidas como demissões voluntárias e aposentadorias antecipadas.

A redução do quadro de funcionários ocorre em um momento de crescente demanda por assistência internacional. Os cortes afetam diferentes agências, entre elas o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A diminuição das equipes pode limitar o atendimento a populações vulneráveis, prejudicando serviços de proteção, educação, saúde e distribuição de recursos básicos.

A situação do Acnur é especialmente preocupante. Em relatório publicado em 29 de setembro, a agência alertou que aproximadamente 8,3 milhões de refugiados, deslocados à força e apátridas correm o risco de perder acesso a serviços essenciais em 2026. Até o fim de julho, o organismo havia recebido apenas 32% dos US$ 8,5 bilhões necessários para financiar suas atividades durante o ano.

A insuficiência de recursos já provoca consequências em diferentes regiões. Entre os problemas identificados estão atrasos no registro de refugiados, redução de auxílios financeiros e restrições a programas de proteção de crianças e mulheres vítimas de violência. A agência também alerta que a continuidade desses cortes pode levar estruturas de proteção humanitária ao colapso em alguns países.

No Brasil, a crise ameaça a capacidade de atendimento a refugiados e migrantes que dependem de programas de acolhimento e integração. De acordo com o Portal Inhaí, o representante do Acnur no país informou que, até o fim de agosto, a agência havia recebido apenas 22% dos recursos necessários para suas operações brasileiras em 2026. No ano anterior, cerca de 40% da força de trabalho do Acnur e de organizações parceiras financiadas pela agência no país precisou ser cortada.

A redução do financiamento pode comprometer iniciativas de orientação, acesso a direitos, integração socioeconômica e apoio a pessoas recém-chegadas ao território brasileiro. Embora o país mantenha garantias legais para refugiados, a implementação dessas medidas depende, em parte, da atuação de instituições públicas e organizações parceiras.

Diante do cenário, a ONU enfrenta o desafio de equilibrar reformas administrativas e limitações orçamentárias sem comprometer sua capacidade de responder a crises internacionais. A recuperação do financiamento e a ampliação de contribuições flexíveis serão fundamentais para evitar novos cortes e preservar a assistência às populações mais vulneráveis.