Exposição no Rio resgata o protagonismo feminino na abolição e aproxima passado da luta antirracista
Mostra reúne obras de 47 artistas e conecta trajetórias de resistência histórica a reivindicações antirracistas do presente

Uma exposição no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, coloca em evidência a participação de mulheres na luta contra a escravidão e estabelece um diálogo entre o movimento abolicionista e as reivindicações antirracistas da atualidade. A mostra reúne referências históricas, artísticas e sociais para destacar personagens femininas que tiveram papel importante na defesa da liberdade e no enfrentamento das desigualdades raciais no Brasil.
A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a atuação de mulheres que, apesar de sua contribuição para o movimento abolicionista, nem sempre receberam o devido reconhecimento na história oficial. O percurso expositivo também propõe uma reflexão sobre a permanência do racismo estrutural e as diferentes formas de resistência construídas pela população negra ao longo dos séculos.
A abolição da escravidão no Brasil, oficializada em 13 de maio de 1888, foi resultado de um processo de mobilização que envolveu diferentes setores da sociedade. Além de lideranças políticas e intelectuais, mulheres participaram de iniciativas de conscientização, articulação social e defesa dos direitos das pessoas escravizadas. Suas ações contribuíram para fortalecer o movimento abolicionista em um período marcado por profundas desigualdades.
Entre as figuras retratadas estão Aqualtune, liderança quilombola associada à formação do Quilombo dos Palmares; Anastácia, símbolo da resistência à escravidão; Maria Firmina dos Reis, escritora e considerada a primeira romancista negra da América Latina; e Maria Felipa, reconhecida por sua participação na resistência contra as forças portuguesas na Bahia durante o processo de Independência do Brasil.
A seleção também apresenta histórias de Esperança Garcia, mulher escravizada que escreveu, em 1770, uma carta denunciando os maus-tratos sofridos e reivindicando o direito de permanecer com sua família; Adelina, que atuou como informante do movimento abolicionista no Maranhão; Luiza Mahin, associada à resistência negra na Bahia; e Maria Tomásia Figueira Lima, ativista cearense que participou da mobilização feminina contra a escravidão.
Com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, a exposição reúne obras de 47 artistas visuais de diferentes gerações. Entre os nomes participantes estão Aline Motta, Renata Felinto, Lidia Lisbôa, Mônica Ventura, Luna Bastos e Manuela Navas. As produções utilizam diferentes linguagens e técnicas artísticas para reconstruir visualmente trajetórias históricas que, em muitos casos, não possuem registros fotográficos ou retratos conhecidos.
Um dos aspectos centrais da iniciativa é justamente enfrentar o apagamento histórico dessas mulheres. Muitas de suas histórias foram preservadas principalmente pela tradição oral, pela memória coletiva e pela resistência das comunidades negras. Nesse contexto, a arte contemporânea funciona como instrumento de valorização da ancestralidade e de construção de novas perspectivas sobre a história brasileira.
A mostra também amplia o debate para além do período da escravidão, abordando questões atuais como racismo estrutural, desigualdade de gênero, direito à moradia, acesso à educação, reconhecimento territorial e representatividade. A proposta é demonstrar que as conquistas do movimento abolicionista não eliminaram as estruturas de desigualdade racial existentes no país.
O projeto já passou por importantes instituições culturais brasileiras, incluindo o Museu de Arte do Rio, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, a Casa da Cultura da América Latina, em Brasília, e o Centro Cultural São Paulo. Ao longo dessas apresentações, alcançou mais de 100 mil visitantes. A edição carioca incorpora ainda obras do próprio acervo do Museu Nacional de Belas Artes.
A exposição permanece aberta ao público até 19 de dezembro de 2026, na Sala Bernardelli, no Museu Nacional de Belas Artes, localizado na Avenida Rio Branco, 199, no centro do Rio de Janeiro. A visitação ocorre de terça-feira a sábado, das 11h às 17h, com última entrada às 16h30. A entrada é gratuita e a classificação é livre.

