Famílias brasileiras
A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 8% em agosto NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images

A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 8% em agosto, o maior nível da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em março de 2011. O crédito livre é aquele em que as condições são pactuadas entre bancos e clientes, e o indicador considera atrasos superiores a 90 dias.

Na prática, a cada R$ 100 emprestados nesse segmento, R$ 8 estão em atraso. A alta foi de 0,2 ponto percentual (p.p.) no mês e de 1 p.p. em 12 meses. Para o conjunto das operações de crédito livre, incluindo empresas, o índice foi de 6,6%, e para as empresas, de 4,3%, conforme a Folhapress.

Cartão e consignado lideram os atrasos

O aumento apareceu em várias modalidades. No cartão de crédito como um todo, a inadimplência atingiu recorde de 10%, alta de 0,5 p.p. sobre julho. No rotativo, subiu de 65,5% para 66,2%. No consignado para trabalhadores do setor privado, o índice praticamente dobrou em um ano, de 5,2% em setembro de 2025 para 10,6% em agosto. A Folhapress cita, entre os fatores, uma falha na transferência automática dos descontos em folha quando o trabalhador troca de emprego.

O peso da mudança contábil

O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, afirmou que a inadimplência está no nível mais alto da série em todos os recortes: crédito total, livre, direcionado e pessoas físicas. Ele ponderou, porém, que parte da alta se deve à mudança de critério contábil. Segundo a Folhapress, estudo do BC indica que esse efeito responde por cerca de metade do crescimento registrado, já que os bancos passaram a ter mais flexibilidade para decidir quando baixar uma operação a prejuízo.

Juros e endividamento

A taxa média de juros do crédito livre para as famílias subiu para 61,7% ao ano, 1,4 p.p. a mais em agosto. O rotativo do cartão chegou a 444,9% ao ano, e o parcelado, a 192,1%, de acordo com a Folhapress. O endividamento das famílias avançou para 49,9% da renda acumulada em 12 meses em julho, 0,2 p.p. acima de junho, e o comprometimento da renda ficou estável em 28,7%. Esses dois indicadores são divulgados com defasagem de dois meses.

Mesmo com o encarecimento, o saldo do crédito livre às famílias chegou a R$ 2,6 trilhões, com alta de 0,8% no mês e de 10,5% em 12 meses, segundo a Agência Brasil.

Reação do governo

O superendividamento preocupa o governo Lula em ano eleitoral, conforme a Folhapress. Na semana passada, o Executivo lançou nova fase do Desenrola Brasil, com até R$ 15 bilhões para comprar carteiras de dívidas de pessoas físicas com atraso de 2 a 4,5 anos em cartão de crédito e crédito pessoal, com meta de renegociar R$ 150 bilhões.